Uma polémica proposta do Governo chinês para expandir as leis de extradição de Hong Kong atraiu cerca de dois milhões de pessoas – mais de um quarto da população total – às ruas, como forma de protesto. Dois dos sites pornográficos da região incentivaram as manifestações.
De acordo com o Quartz, citado pelo All That’s Interesting (ATI) na segunda-feira, a emenda iria facilitar a extradição de suspeitos para a China continental. Com efeito, o povo de Hong Kong, que goza de liberdades de expressão muito mais amplas, estaria sujeito às leis muito mais restritivas da China continental.
A oposição do público a essas leis tornou-se tão forte que encontraram solidariedade de uma base talvez inesperada: os sites pornográficos.
Dois sites do género, o ThisAv e o AV01, exibiram mensagens nas suas ‘landing pages’ a criticar o Governo de Hong Kong, utilizando palavrões e referências sexualmente explícitas. Inicialmente, recomendaram aos visitantes que estivessem presentes nos protestos de “vida ou morte” de 09 de junho, ao invés de ficarem a “masturbar-se em casa”.
Três dias depois, dezenas de milhares de manifestantes compareceram e escolheram os principais edifícios do Governo como alvos. Interromperam o tráfego pacificamente e o fluxo normal de negócios dentro e fora do centro de Hong Kong para esclarecer as coisas: “essa lei não é o que nós, o povo, queremos”.
Numa publicação no Twitter, o fundador do ThisAV pediu que os media não retratassem o seu negócio como “algum tipo de site consciencioso”, já que isso prejudicaria “outras empresas que são verdadeiramente conscientes”.
O fundador, que optou por permanecer anónimo, explicou que suas ações apenas permitiam dar um maior destaque ao que “maioria das pessoas de Hong Kong está a pensar”. O jornal local chinês Apple Daily informou que esta não é a primeira vez que o ThisAV ajuda os movimentos regionais pró-democracia.
O AV01, entretanto, indicou que estava apenas a seguir o exemplo, suspendendo as operações. Na sua ‘landing page’, instava os visitantes que normalmente evitavam o confronto a reconsiderar e a sair de casa para protestar.
“Quer viver o resto da sua vida a olhar por cima do seu ombro? Não haverá mais lugar seguro ou segurança. O governo falhou consigo, o sistema falhou consigo, a sociedade falhou consigo, quer falhar consigo mesmo?”, lia-se na página.
Enquanto o AV01 bloqueava toda a sua pornografia a partir de 11 de junho, para motivar os espetadores a sair de casa, o ThisAV mantinha o seu conteúdo no site.
A indústria de “conteúdo adulto” de Hong Kong tem décadas de história no apoio a movimentos pró-democracia. Durante o massacre da Praça Tiananmen, em 1989, a revista Lung Fu Pao apoiou publicamente os manifestantes e enviou-lhes os seus lucros.
Segundo o New York Times, a chefe do executivo de Hong Kong, Carrie Lam, suspendeu o polémico projeto de extradição no sábado e pediu desculpas. Os manifestantes voltaram às ruas no domingo com uma lista ainda mais longa de exigências, confiantes de que a onda de apoio deu-lhes uma vantagem.
No final, o resultado bastante incerto. Irá Carrie Lam se demitir? A medida será oficialmente retirada? Ninguém sabe. “O que está claro, no entanto, é que os cidadãos de Hong Kong são resilientes e determinados”, referiu o ATI.
“Eles [os manifestantes] querem enviar uma mensagem para Pequim”, disse Willy Lam, professor do Centro de Estudos da China da Universidade Chinesa de Hong Kong. “Se Pequim quiser fazer algo que realmente infrinja os princípios básicos de Hong Kong, as pessoas vão voltar a vigorar, repetidas vezes, para demonstrar o seu descontentamento”.
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