A mais famosa imagem da evolução humana está errada

A “Marcha do Progresso” é muito provavelmente a imagem mais famosa do mundo que retrata a evolução humana. No entanto, ela não é tão correta como pensamos.

A evolução explica como todos os seres vivos, incluindo nós, surgiram. Seria fácil assumir que a evolução funciona ao adicionar continuamente características aos organismos, aumentando constantemente a sua complexidade. Alguns peixes evoluíram pernas e caminharam para a terra. Alguns dinossauros desenvolveram asas e começaram a voar. Outros desenvolveram úteros e começaram a dar à luz.

No entanto, este é um dos equívocos mais predominantes e frustrantes sobre a evolução. Muitos ramos da árvore da vida permaneceram simples, como bactérias, ou reduziram a sua complexidade, como parasitas.

Num estudo recentemente publicado na Nature Ecology and Evolution, investigadores compararam os genomas de mais de 100 organismos, para estudar como o reino animal evoluiu a nível genético. Os resultados mostram que as origens de grandes grupos de animais, como o que compreende os seres humanos, estão ligadas não à adição de novos genes, mas a enormes perdas de genes.

“Marcha do Progresso”, ilustrada por Rudolph Zallinger, em 1965.

O biólogo evolucionista Stephen Jay Gould foi um dos opositores mais fortes da “marcha do progresso”, a ideia de que a evolução sempre resulta em maior complexidade. No seu livro “Full House”, Gould usa o modelo da caminhada dos bêbados. Um bêbado deixa um bar na estação de comboios e desajeitadamente caminha para a frente e para trás sobre a plataforma, balançando entre o bar e a linha. A seu tempo, o bêbado cairá na linha e ficará preso lá.

A plataforma representa uma escala de complexidade, o bar sendo a menor complexidade e a linha, o máximo. A vida surgiu ao sair do bar, com a mínima complexidade possível. Às vezes, tropeça aleatoriamente em direção à linha (evoluindo de uma maneira que aumenta a complexidade) e outras vezes em direção ao bar (reduzindo a complexidade).

Nenhuma opção é melhor do que a outra. Ficar simples ou reduzir a complexidade pode ser melhor para a sobrevivência do que evoluir com maior complexidade, dependendo do ambiente.

Mas, em alguns casos, grupos de animais desenvolvem características complexas que são intrínsecas à maneira como os seus corpos funcionam e não podem mais perder esses genes para se tornarem mais simples. Por exemplo, organismos multicelulares raramente voltam a tornar-se unicelulares.

Se apenas nos focarmos nos organismos presos na linha de comboio, teremos uma perceção tendenciosa da vida a evoluir em linha reta, do simples ao complexo, acreditando erroneamente que as formas de vida mais antigas são sempre simples e as mais novas são complexas. Mas o verdadeiro caminho para a complexidade é mais tortuoso.

Estudar a árvore da vida

A maioria dos animais pode ser agrupada em grandes linhagens evolutivas, galhos na árvore da vida, mostrando como hoje os animais evoluíram a partir de uma série de ancestrais compartilhados.

Os cientistas pegaram na seleção diversificada de organismos e procuraram ver como é que eles estavam relacionados na árvore da vida e quais genes compartilhavam e não compartilhavam. Se um gene estava presente num galho mais antigo da árvore e não num mais jovem, inferiram que esse gene tinha sido perdido. Se um gene não estava presente em galhos mais velhos, mas aparecia num galho mais novo, consideravam um novo gene que tinha sido ganho.

Os resultados mostraram um número sem precedentes de genes perdidos e ganhos, algo nunca antes visto em análises anteriores. Duas das principais linhagens, os deuterostómios (incluindo humanos) e os esporozoários (incluindo insetos), apresentaram o maior número de perdas de genes.

O estudo confirma o quadro apresentado por Stephen Jay Gould, mostrando que, no nível dos genes, a vida animal emergiu ao sair do bar e ao dar um grande salto em complexidade.

Mas após o entusiasmo inicial, algumas linhagens chegaram mais perto do bar, perdendo genes, enquanto outras linhagens aproximaram-se da linha, ganhando genes. Os investigadores consideram este o resumo perfeito da evolução, uma escolha aleatória induzida por álcool entre o bar e a linha férrea.

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7 COMENTÁRIOS

  1. Em vez de “esporozoários” escreveria “protostómios”, no terceiro capítulo a contar do fim. Os insectos não são esporozoários como vem indicado na peça.

  2. Escreveria que concordo com ambos. O primeiro caso é de maior complexidade e o segundo mais simplificado. Parece que também os ilustres comentadores percorrem o caminho do bêbado.

  3. Bem,…
    Eu também acho ESSA peça uma peça.
    De facto, evolução é um galho duro pra quebrar, não só pro animal humano, mas como pra muitos outros…,
    Realmente gostei da imaginação de Stephen Jay Gould, pois consegue ilustrar muito bem como é a caminhada evolutiva do homem no mundo actual, e pelo que percepciono ?bem até do intemporal…
    É verdade que temos um bando de borracheiros e borracheiras, cada vez maior nesse mundo, uns porque bebem além das medidas, e outros porque se drogam, outros ainda porque se embebedam com ideias, vivem aí numa competição, ficando se achando um melhor que o outro, fazendo uma macacada só, e nem tão nem aí pra se esforçar e entender que cada macaco deve tar no seu galho.
    Por certo o que existe, é que, seja qual fôr a substâncias com que cada um se emborracha, ( pois cada um com seu cada um ), sempre vai ser difícil, alguém saindo de bar, caindo de bêbado, entrar na linha.
    Eu já entrei em muitos bares, e nunca saí bêbado… Não bebo.
    Muito tomam todas, outros demais das medidas, mas o bar não se altera.
    Pra mim, é o que o bêbado faz no bar, que dita a carga com que avança pra linha…quanto mais bebe, menos direito ele anda, menos recta é a sua linha da evolução… Depois tem os que têm seus traços cortados na linha, outros atravessam a linha, e outros pegam o trem e seguem um caminho diferente, outros se lhes perde o rasto…
    Mas a genética da borracheira e de ser ruim de entrar na linha… Bom, isso não se altera.

  4. Bom, não sei que aconteceu com o primeiro comentário que escrevei….
    Gostei sobretudo da exposição bem ilustrativa do senhor Stephen Jay Gould, e como ele consegue mostrar que ESSA caminhada evolutiva é uma
    Full House… O próprio mundo é.
    Nessa estória da evoluçao realmente é ruim de fazer um bêbado entrar na linha, isso é um galho duro de quebrar, que fará um bando deles, espalhado pelo mundo, cheios de raivas e ódios de estima, uma competição desgarrada, cada um se achando MELHOR que o outro, e fazendo questão de não querer ver que cada macaco deve tar no seu galho?
    Devo dizer que eu já fui em muitos bares e nunca saí de lá bêbado, eu não bebo. Não é no bar que tá o problema, mas sim o que se toma dentro do bar, tem aqueles que tomam todas, outros além das medidas e outros que não….
    Mas seja lá porque bebem, porque se drogam, seja até porque se embebedam com ideias, o certo é que quando vão pra pegar o comboio, é ruim de ir direito.
    Uns caem pelo caminho, outros ficam cortados pelo comboio, outros atravessam a linha, e há aqueles que pegam o trem e vão até um destino, e outros que vão e niguém mais lhes segue o rasto…. É no que dá barreiras sem controle….
    Certo certo, só temos que ESSA caminhada evolutiva só irá ver todos os animais, incluindo o humano, entrarem definitivamente na linha, sem borracheiras e cada um no seu galho, se integrando numa só árvore… Numa só linha de comboio, isso se não ficarem na plataforma ou caírem ma linha….

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