Invasores quase exterminaram o primeiro povo das Caraíbas (muito antes da chegada de Colombo)

Uma investigação, que combina trabalho arqueológico com avanços na tecnologia genética, sugere que os povos originários das Caraíbas podem ter sido conquistados e quase exterminados por povos da América do Sul pelo menos mil anos antes de Cristóvão Colombo chegar à América e da conquista espanhola iniciada em 1492.

A equipa de investigadores analisou os genomas do material genético obtido dos ossos de 174 indivíduos das Bahamas, Haiti, República Dominicana, Porto Rico, Curaçao e Venezuela e comparou com as análises de 89 pessoas publicadas anteriormente.

As Caraíbas pré-contacto são divididas em três idades arqueológicas. As Idades Lítica e Arcaica são definidas por tecnologias distintas de ferramentas de pedra, e a Idade da Cerâmica – que começou há cerca de 2.500 anos – caracterizou-se por uma economia agrícola e produção intensiva de cerâmica.

“Os primeiros habitantes das ilhas, um grupo de utilizadores de ferramentas de pedra, foram de barco para Cuba há cerca de seis mil anos, expandindo-se gradualmente para o leste para outras ilhas durante a Idade Arcaica da região”, disse William Keegan, arqueólogo do Museu Natural de História da Flórida, citado pelo SciNews.

Há entre 2.500 e 3.000 anos, agricultores e oleiros de vários povos ameríndios partiram em canoas da costa nordeste da América do Sul e chegaram às ilhas das Caraíbas. “A chegada deles marcou o início da Idade da Cerâmica da região, marcada pela agricultura e pela ampla produção e uso da cerâmica”, disse Keegan.

“Com o tempo, quase todos os traços genéticos dos povos da Idade Arcaica desapareceram, exceto uma comunidade restrita no oeste de Cuba que persistiu até a chegada dos europeus”, acrescentou o investigador.

O casamento entre os dois grupos era raro, com apenas três indivíduos no estudo a mostrar ascendência mista. Muitos cubanos, dominicanos e porto-riquenhos da atualidade são descendentes de pessoas da Idade da Cerâmica, bem como de imigrantes europeus e de africanos escravizados. Porém, a equipa só observou evidências marginais da ancestralidade da Idade Arcaica em indivíduos modernos.

Durante a Idade da Cerâmica, a cerâmica passou por pelo menos cinco mudanças marcantes de estilo ao longo de 2.000 anos.Alguns arqueólogos apontaram essas transições como evidência de novas migrações para as ilhas.

No entanto, o ADN conta uma história diferente, sugerindo que todos os estilos foram desenvolvidos por descendentes das pessoas que chegaram às Caraíbas antes da Idade da Cerâmicas.

“Documentámos essa notável continuidade genética em todas as mudanças no estilo da cerâmica. Falámos sobre potes vs. pessoas e, até onde sabemos, são apenas potes ”, disse Kendra Sirak, investigadora de pós-doutoramento do Departamento de Genética da Escola de Medicina de Harvard e do Departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade de Harvard.

Uma análise dos cromossomas masculinos revelou 19 pares de primos genéticos que vivem em diferentes ilhas. “Descobrir uma proporção tão alta de primos genéticos numa amostra de menos de 100 homens é outro indicador de que o tamanho total da população da região era pequeno”, disse David Reich, investigador do Instituto Blavatnik da Escola de Medicina de Harvard e do Departamento de Humanos Biologia Evolutiva na Universidade de Harvard.

Os cientistas também descobriram que cerca de 10 mil a 50 mil pessoas viviam em duas das maiores ilhas das Caraíbas, Hispaniola e Porto Rico pouco antes da chegada dos europeus. “Isso está muito aquém do milhão de habitantes que [Cristóvão] Colombo descreveu aos seus patronos, provavelmente para impressioná-los”, disse Keegan.

O historiador Bartolomé de las Casas, do século XVI, afirmou que a região abrigava três milhões de pessoas antes de ser dizimada pela escravidão e doenças europeias.

“Embora isso também seja um exagero, o número de pessoas que morreram como resultado da colonização continua a ser uma atrocidade”, disse Reich. “Este foi um programa sistemático de apagamento cultural. O facto de que o número não era de um milhão ou milhões de pessoas, mas sim dezenas de milhares, não torna esse apagamento menos significativo”.

Este estudo foi publicado este mês na revista científica Nature.

[sc name=”assina” by=”Maria Campos, ZAP” url=”” source=””]

 

 

 

 

 

 

 

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