Tor Håkon / Flickr

O vídeo da jovem alegadamente abusada num autocarro da STCP, durante a Queima das Fitas do Porto, terá sido partilhado num grupo secreto do Facebook. Entretanto, a PSP já identificou a vítima, que continua sem apresentar queixa.

Esta nova informação é avançada pelo Observador esta quinta-feira, que explica que o grupo secreto se chama “IMASOLDIER” (“sou um soldado” em tradução para português) e tem como único propósito “partilhar conteúdos sexualmente explícitos”.

Segundo o jornal online, é impossível encontrar o grupo numa pesquisa no Facebook e lá só entram homens com mais de 18 anos, com perfis criados há pelo menos um ano e meio e que tenham fotografias de perfil identificáveis. Já conta com mais de 44.500 membros.

Terá sido neste grupo que, no último domingo, o vídeo da jovem alegadamente abusada num autocarro da STCP, durante a Queima das Fitas do Porto, foi partilhado e entretanto apagado horas depois, confirmaram várias fontes ao Observador. Alguns dos envolvidos nas imagens poderão também fazer parte deste “IMASOLDIER”.

Embora não tenha conseguido aceder ao grupo secreto, o jornal teve acesso a vários posts que lá foram publicados, bem como às regras do mesmo, que se rege pelo lema “Por nós HOMENS, para interagirmos longe dos olhares das MULHERES, tirar dúvidas, soltar sorrisos, partilhar momentos bons e menos bons das nossas vidas”.

Entre as publicações estarão fotografias e vídeos de conteúdo sexualmente explícito, geralmente atos de sexo anal e oral captados sem o conhecimento das intervenientes, que são também ocultadas com o recurso a “emojis” em sítios como a cara ou tatuagens.

Segundo o Observador, há posts feitos a partir de todo o país (e alguns já chegam até de Angola). Alguns membros também fotografam mulheres desconhecidas na rua, partilhando depois o local onde se cruzaram ou onde podem ser encontradas.

Em declarações ao jornal online, a mulher de um membro do grupo ficou a saber da sua existência depois de, há cerca de uma semana, ter descoberto as passwords das redes sociais do marido. “Há três dias, quando vi o vídeo da rapariga no autocarro decidi que tinha de fazer alguma coisa. Foi o mais grave que vi no grupo, e duas horas depois estava apagado. Quero que o grupo acabe e que as vítimas saibam o que andaram a fazer com elas”, afirma.

Outra interveniente, que diz ter conhecido o grupo através de uma página feminista, contou que há elementos a copiar os posts para depois denunciar os casos na polícia e que ainda só não o fizeram por medo. “Ontem uma rapariga fez um post viral sobre o vídeo do abuso no autocarro e publicou as caras dos rapazes que fizeram aquilo. Em 20 minutos, teve milhares de partilhas. E muitas, muitas ameaças

, acabou por apagar a publicação. Temos medo”, desabafa.

Rapariga já foi identificada (mas não apresentou queixa)

De acordo com o jornal Público, as autoridades já identificaram a rapariga, no entanto, esta não quis apresentar qualquer queixa. Entretanto, a Polícia Judiciária também confirmou que tem inspetores “no terreno” para averiguar o caso.

Temos gente no terreno. Estamos a recolher elementos para ver se há matéria para investigação. Neste momento ainda não foi instaurado nenhum inquérito”, disse fonte da PJ ligada ao processo à agência Lusa.

A mesma fonte explicou que o caso poderá ser tratado como um crime semipúblico, uma vez que a rapariga é maior de idade, mas o inquérito só pode avançar depois de ser apresentada uma queixa.

O caso foi dado a conhecer, esta quarta-feira, pelo Correio da Manhã. Apesar de o jornal ter desfocado a cara dos intervenientes no vídeo, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) já abriu um processo para analisar esta divulgação.

Contactado pela Lusa, Otávio Ribeiro, diretor do CM, afirmou que o jornal divulgou “um facto relevante e polémico, protegendo a identidade” dos envolvidos e assinalou que “sem notícias, não há reflexão”.

A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) anunciou que apresentou uma queixa contra o jornal. Em comunicado, a comissão manifesta publicamente repudio “pela gravidade dos comportamentos praticados e divulgados pelas redes sociais e pelo órgão de comunicação social Correio da Manhã, através de um vídeo em que é visível um alegado abuso sexual a uma rapariga”.

A CIG decidiu apresentar queixa contra o CM, no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, para apuramento de responsabilidade criminal, “uma vez que as imagens divulgadas indiciam a prática de crime contra a honra ou contra a reserva da vida privada”.

A CIG vai também apresentar queixa no DIAP do Porto contra incertos, igualmente para apuramento de responsabilidade criminal, “uma vez que as imagens indiciam comportamentos que consubstanciam a prática de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual”.

[sc name=”assina” by=”ZAP” url=”” source=”Lusa” ]