Tiago Petinga / Lusa
A saída de Jamila Madeira do cargo de secretária de Estado Adjunta e da Saúde, a pedido da ministra Marta Temido, deixou alguns socialistas “arrepiados” e há um desconforto interno com a situação. É mais uma pedra no sapato de António Costa.
A inclusão de António Costa na Comissão de Honra da recandidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica, tanto mais quando o dirigente desportivo é um dos acusados da Operação Lex, motivou muitas críticas ao primeiro-ministro.
Dentro do PS tratou-se de defender o governante, notando-se a sua condição de cidadão e de adepto benfiquista como a causa daquele apoio a Vieira. Mas, agora, há muitos socialistas que consideram que Costa não esteve à altura na forma como permitiu a exoneração de Jamila Madeira a pedido de Marta Temido.
“Só mostra que o primeiro-ministro se desinteressou pela gestão do Governo e do PS”, analisa um dirigente do PS em declarações ao Correio da Manhã (CM).
Sobre a saída de Jamila Madeira, “é incompreensível”, considera ao jornal Sol o ex-ministro da Saúde socialista Adalberto Campos Fernandes.
“Foi uma vergonha o que se passou, o tratamento do ministério em relação à Jamila é incompreensível”, acrescenta outra fonte do PS ouvida pelo CM.
Contudo, outro dirigente socialista repara ao CM que “a reacção de Jamila para a imprensa foi deselegante, veio desencadear mais uma polémica”.
Depois da exoneração, Jamila Madeira fez questão de sublinhar que não pediu para sair e que ficou “muito surpreendida com a opção da senhora ministra da Saúde”.
Já Marta Temido veio notar que as “remodelações devem ser encaradas com normalidade”, justificando que pretendeu apenas “afinar métodos de trabalho
e aprofundar resultados, independentemente de quem ocupou os lugares”.“Choque de personalidades” e invasão de competências
Quanto aos motivos da ruptura entre Marta Temido e Jamila Madeira, o Expresso fala num “choque de personalidades”.
“Jamila desafiava a ministra, que lhe invadia competências”, nomeadamente “ao chamar responsáveis de áreas da sua tutela sem a consultar”, acrescenta o semanário.
O CM fala também de “um choque entre a então secretária de Estado e a ministra, por razões pessoais ou do foro técnico“.
“A relação nunca correu bem, não chegaram a olear a máquina para que uma puxasse pela saúde e a outra pelas contas (a gestão do SNS, a relação com os hospitais e as PPP estavam a cargo de Jamila)”, aponta ainda o Expresso.
O que é certo é que “a forma como tudo aconteceu “arrepiou” alguns dirigentes”, destaca o semanário.
O caso provocou uma “divisão interna difícil de sarar”, segundo o CM, até porque não é muito habitual que uma ministra que chegou ao Governo como independente acabe a exonerar uma figura que faz parte do aparelho socialista, tendo “subido” no partido desde os tempos em que foi líder dos “jotinhas”.
Este facto também “caiu mal em sectores do PS”, aponta o Expresso, até porque a situação é encarada como um “reforço de poder” para Marta Temido em plena pandemia.
Temido nunca foi uma figura consensual no seio do PS e chegou a apontar-se que teria o lugar a prazo. Com a exoneração de Jamila Madeira “ganhou mais alguns anticorpos entre socialistas”, conclui o Expresso.
Por outro lado, a popularidade da ministra da Saúde entre os portugueses cresceu muito à custa da pandemia. Num recente índice de reputação que analisa a relação emocional com os cidadãos, Marta Temido surge entre as “marcas mais relevantes” a par de Cristiano Ronaldo ou de Galp, Google e Continente.
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Uma grande trapalhada na saúde. Erros atrás de erros.