Helena Carpio / EPA
A oposição venezuelana classificou, este domingo, de “fracasso” do Governo a participação nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), enquanto o executivo falou de uma adesão maciça dos venezuelanos ao ato eleitoral convocado pelo Presidente Nicolás Maduro.
Freddy Guevara, primeiro vice-presidente do parlamento, onde a oposição tem uma larga maioria desde as últimas eleições, disse aos jornalistas que o processo fracassou e constitui “uma grande derrota” para o Governo de Nicolás Maduro.
O representante da oposição disse estar seguro que o regime “vai iniciar todo um processo para demonstrar com imagens dos centros eleitorais que em teoria tudo está em paz e está tudo feliz”, e que ao mesmo tempo apague “a repressão que exercem contra o povo”.
O deputado opositor José Guerra afirmou, na sua conta do Twitter, que a eleição da Constituinte foi “um fracasso monumental”, uma mensagem que acompanhou com duas fotografias da rua quase vazia em frente a um centro de votação no centro de Caracas.
O presidente do Parlamento, Julio Borges, porta-voz da aliança opositora MUD, afirmou que “só 7% dos eleitores da Venezuela foi votar” nas eleições deste domingo, considerado que a votação não teve qualquer apoio do eleitorado.
Para Julio Borges “hoje venceu o povo venezuelano”, numa eleição contra “um governo autoritário e completamente fora da Constituição”.
A oposição venezuelana, que decidiu não participar nas eleições, acusa Nicolás Maduro de pretender usar a reforma para instaurar no país um regime cubano e perseguir, deter e calar as vozes dissidentes.
“Triunfou a paz, podemos dizer, triunfou a democracia”
Porém, Nicolás Maduro celebrou os resultados perante centenas de apoiantes que se concentraram na noite deste domingo na Praça Bolívar, em Caracas. O Presidente da Venezuela elogiou os venezuelanos pela “lição de coragem” e “maior participação histórica” nas eleições deste domingo para a Assembleia Constituinte.
“Temos Assembleia Constituinte (…), oito milhões (de votos) por entre ameaças (…), foi a maior votação que teve a revolução bolivariana em 18 anos. O povo deu uma lição de coragem, de valentia. O que vimos foi admirável”, declarou Maduro.
O chefe de Estado venezuelano referiu-se ainda às “pretensões insolentes” do Presidente norte-americano, Donald Trump, de “ditar normas, ordens” a Caracas, com advertências de que não reconhecerá os resultados.
“Que nos importa o que diga Trump. Importa é o que diz o povo soberano da Venezuela (…) aqui na Venezuela ordenam e mandam os venezuelanos, o povo valente”, frisou.
EUA, Argentina, México, Peru, Paraguai, Colômbia, Panamá e Espanha já anunciaram que não reconhecem os resultados desta votação.
Por sua vez, o vice-presidente do Governo, Tareck el Aissami, saudou o decorrer da jornada, que elege milhares de candidatos, sem a participação da oposição, aos 545 membros da Assembleia Constituinte convocada por Maduro.
“Triunfou a paz, podemos dizer, triunfou a democracia. O povo saiu, de forma maciça, para exercer este direito humano, este direito fundamental”, disse El Aissami numa intervenção transmitida pela televisão, após votar no estado costeiro de Aragua.
O governante responsabilizou “as forças da intolerância” por um incidente ocorrido no estado de Táchira, afirmando que “a antidemocracia pretende impor a agenda da violência”.
O chefe da campanha para a Constituinte, Héctor Rodríguez, celebrou o “rio de gente” que, na sua opinião, foi hoje votar “contra a violência” que diz ser causada pela oposição durante os protestos contra o Governo.
Mortes e violência nas ruas
O dia da votação decorreu entre encerramentos de ruas e outras formas de protesto
convocadas pela oposição em todo o país, algumas marcadas por incidentes violentos.Dez pessoas morreram este domingo, incluindo dois adolescentes de 13 e 17 anos, segundo o Ministério Público. Um número que, no entanto, não bate certo com os números da oposição, que aponta para 14 vítimas.
Os críticos da Constituinte veem neste processo uma intenção do chavismo de consolidar uma ditadura na Venezuela. Os opositores e os defensores do Governo têm disputado, na rede Twitter, uma guerra de fotografias, com os primeiros a mostrar imagens de centros de votação desertos e os segundos a publicar imagens de filas à porta dos locais de voto.
Entretanto, a oposição já marcou novas manifestações para esta segunda e quarta-feira.
Mais de cem pessoas foram mortas nos protestos anti-governamentais que têm agitado a Venezuela desde o passado dia 1 de abril.
António Cotrim / Lusa
A democracia exige liberdade de expressão, pluralidade de opiniões, imprensa livre
Catarina Martins: eleição não é um ato democrático
A líder do Bloco Esquerda (BE), Catarina Martins, disse hoje em Oliveira do Hospital, no distrito de Coimbra, que as eleições para a Assembleia Constituinte da Venezuela não são um ato democrático.
“Na Venezuela não estão garantidas condições de liberdade e de pluralidade e há também uma enorme ingerência externa que condiciona muitas decisões que são tomadas e, portanto, sobre todos os pontos de vista diria que não estamos a olhar para uma situação democrática”, sublinhou a dirigente.
Quase 20 milhões de pessoas são hoje chamadas a votar naquele país da América do Sul para eleger uma Assembleia Constituinte, num sufrágio convocado pelo presidente Nicolás Maduro, com o principal objetivo de alterar a Constituição em vigor, nomeadamente os aspetos relacionados com as garantias de defesa e segurança da nação, entre outros pontos.
A coordenadora do BE manifestou-se preocupada com a situação de instabilidade que se verifica naquele país da América do Sul e disse esperar que a comunidade portuguesa aí residente seja acompanhada da melhor maneira possível.
Catarina Martins sublinhou ainda que “o BE nunca confundiu a democracia com o ato formal de voto”, salientando que “há muitas ditaduras em que se vota, por exemplo em Angola, e não são uma democracia”.
“Portanto, o facto de existir este domingo na Venezuela um ato em que as pessoas vão votar não significa que seja democrático, porque as condições da democracia exigem liberdade de expressão, pluralidade de opiniões, imprensa livre, e que haja capacidade dos próprios países tomarem decisões”, frisou.
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Cadê a versão do governo, ou vcs só dão voz a oposição?? Kd a imparcialidade da mídia?