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O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres

Uma carta enviada pelo secretário-geral das Nações Unidas António Guterres ao presidente sírio Bashar al-Assad, felicitando-o pelo dia da independência do país, provocou a indignação de activistas sírios, que condenam o gesto para com “um homem implicado num ataque com gás sarin”.

Segundo a agência oficial síria SANA, “o presidente sírio, Bashar al-Assad, recebeu uma carta de congratulações do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres“, por ocasião do Dia da Independência da Síria, celebrado no dia 18 de Abril.

Na carta, diz a agência, António Guterres “exprime nesta ocasião as mais calorosas congratulações ao povo da Síria e ao seu governo”, acrescentando que “conta com o envolvimento da Síria para construir uma ONU mais forte”.

Fonte oficial do gabinete do secretário geral da ONU confirmou à revista Sábado o envio da carta ao presidente sírio, acusado pela comunidade internacional de usar armas químicas, mas garante que “é apenas uma carta genérica que celebra os dias nacionais dos países espalhados pelo mundo”.

A carta que enviámos não é uma carta personalizada. Enviamos uma carta genérica a qualquer país que celebre o seu dia nacional”, explicou à Sábado a mesma fonte.

A missiva de António Guterres, contudo, foi bastante mal recebida pelos rebeldes que combatem o regime sírio e por diversas organizações de defesa dos direitos humanos, que não entendem “como é que as Nações Unidas felicitam um homem implicado num ataque com gás sarin contra o seu próprio povo”.

“Só podem estar a brincar com as pessoas que estão aqui. Bashar al-Assad está envolvido num ataque com gás sarin contra o seu próprio povo”, lamenta Bilal Adbdul Kareem, activista com mais de 57 mil seguidores no Twitter. “Meio milhão de mortos, ataques com gás, e recebe felicitações?”, pergunta o jornalista sírio.

A jornalista Noga Tarnopolsky, especialista em assuntos internacionais que colabora com jornais como o The New York Times e Washington Post ou o espanhol El País, vai mesmo mais longe, e classifica a carta de António Guterres como uma “obscenidade”.

“Aqui está, a obscenidade de Guterres, tal como anunciada por Assad”, diz a jornalista.

O regime de Damasco tem sido acusado pela comunidade internacional de recorrer ao uso de armas químicas na luta contra a oposição

a Bashar al-Assad.

Em agosto de 2015, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade a criação de um grupo de peritos para investigar os responsáveis pelo uso de armas químicas na Síria.

A missão dos peritos, segundo o texto da resolução, era “identificar, tanto quanto possível, indivíduos, entidades, grupos e governos” responsáveis pela organização, patrocínio ou perpetração de ataques com gás de cloro.

A resolução surgiu após a guerra civil na Síria ter atingido níveis inéditos de violência, e de um ataque químico com gás de cloro ter feito dezenas de vítimas na cidade de Saraqeb, no norte do país.

Em dezembro do ano passado, a ONU aprovou a criação de uma outra comissão, para investigar a responsabilidade pela ocorrência de crimes graves, violações das normas internacionais humanitárias e de direitos humanos nas últimos anos na Síria.

No dia 4 de abril, um ataque com gás sarin, um poderoso agente neurotóxico, fez 87 mortos na cidade de Khan Sheikhun, na província de Idleb. A autoria do ataque foi atribuída ao regime sírio, acusação que Damasco rejeita totalmente.

O programa de armas químicas de Al-Assad foi teoricamente desmantelado em 2013, fruto da pressão dos EUA e da Rússia, depois de um ataque com gás sarin em Damasco ter provocado a morte a cerca de 1400 pessoas.

A guerra na Síria fez já mais de 320.000 mortos desde 2011.

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