Orestis Panagiotou / EPA
O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras
A antiga presidente do Parlamento grego e ex-aliada de Alexis Tsipras, Zoe Konstantopoulo, revelou que vai processar o governo regional de Ática e o governo grego pelas falhas na resposta aos incêndios que esta semana assolaram a Grécia e mataram, pelo menos, 83 pessoas.
“Estive nos últimos dois dias em Mati e vou voltar amanhã. Porque nós, o meu partido, Caminho para a Liberdade, vamos apresentar uma queixa-crime contra as autoridades regionais e o governo grego pelas mortes causadas”, revelou Zoe Konstantopoulo numa entrevista telefónica ao Diário de Notícias.
Konstantopoulo explicou que o partido vai avançar para o processo criminal porque “as pessoas morreram por razão nenhuma“. “Ninguém as informou do perigo, não houve um plano de evacuação da área, as autoridades tiveram algumas horas para reagir, mas não o fizeram. Deixaram as pessoas indefesas à morte”, apontou.
Acrescentando que foi bloqueada uma estrada principal através da qual as pessoas poderiam sair de Mati, uma das regiões mais afetadas. As pessoas foram direcionadas depois para estradas mais pequenas. “Foi como mandá-las para ratoeiras“.
“O que aconteceu aqui é claramente da responsabilidade do governo regional e do governo grego. Aquelas pessoas poderiam ter sido salvas. E deviam tê-lo sido. Não se morre assim nem em tempos de guerra”, lamentou.
A ex-presidente do Parlamento grego argumentou que, mesmo em clima de guerra, há um aviso prévio de evacuação – o que não se verificou nestes incêndios. “Mati é Atenas. Claro que o governo e as autoridades regionais talvez estivessem mais ocupados a preparar os festejos da saída do resgate”, atirou.
Alexandros Vlachos / EPA
O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, cumprimenta a antiga presidente do Parlamento, Zoi Konstantopoulou, que votou contra o acordo com os credores
Questionada sobre se as medidas de austeridade na Grécia levaram a cortes na Proteção Civil na ordem dos 34 milhões de Euros, Konstantopoulo confirmou o valor, acreditando que este possa ainda ser maior.
“As medidas de austeridade deixaram as pessoas sem proteção. Houve cortes na Proteção Civil. Mas não só. Também nos hospitais, médicos, enfermeiros. Ao ver o que se passou percebemos a importância que essas pessoas têm”.
Por tudo isto, Zoe Konstantopoulo revelou sentir-se “extremamente ofendida” pelas declarações de compaixão
e solidariedade feitas por líderes como Angela Merkel, Emmanuel Macron, Jean-Claude Juncker, que são os próprios credores, explicou.“O povo grego foi deixado nesta situação também por causa das medidas de austeridade e dos memorandos. O que eu sempre disse é que o governo não tem o direito de obedecer a estas medidas e deixar o seu povo sem proteção”, reiterou.
A advogada não poupou críticas ao atual chefe do executivo grego, Alexis Tsipras, acusando-o de ter traído o paíse de se vender à austeridade.
“O que queremos é que Nova Democracia e Syriza sejam esmagados. O nosso povo já fez isso antes quando, em 2012, derrubou o antigo sistema político. Só que, infelizmente, o que foi iniciado na altura perdeu-se porque Tsipras é um traidor do povo grego“.
Konstantopoulo disse ainda esperar que o povo “recupere a sua autoconfiança e vontade de lutar pelos seus direitos e pela sua dignidade. Lutar para restaurar uma verdadeira democracia no nosso país, para derrubar todos estes partidos e personalidades políticas que causaram tanta, tanta destruição”, disse ao DN.
Zoe Konstantopoulo é advogada e foi uma das estrelas de Syriza quando esta chegou ao poder na Grécia, em 2015. Eleita a mais jovem presidente do Parlamento grego, Konstantopoulou, de 41 anos, era uma das maiores aliadas de Alexis Tsipras.
Tsipras perdeu o apoio de Konstantopoulo, quando ignorou o resultado do referendo de 5 de julho de 2015 sobre um eventual terceiro resgate da troika – no qual, 61% dos eleitores votaram contra. Na votação, participaram 63% dos gregos.
Tsipras, atual líder do governo grego, acabou por recorrer a um terceiro resgate, levado ao rompimento total com a presidente do parlamento. Konstantopoulo foi também presidente do partido Synaspismos, o principal partido dentro do Syriza. Em 2016, Zoe Konstantopoulo criou um novo partido, o Caminho para a Liberdade.
[sc name=”assina” by=”ZAP” ]
Onde ocorreram os incêndios existiam casas clandestinas e quase todas as que se viram na TV estavam rodeadas de arvoredo. Fazer o quê? Mandar para lá o Costa e uma roçadora. Acho bem os gregos não quererem austeridade, assim apresenta-se-lhes outra vez a conta da dívida que foi perdoada em tempos. Esta gente cospe em quem lhes dá o dinheiro.