Marcelo Camargo / Agência Brasil

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, usou esta quinta-feira a história pessoal da sua infância para argumentar que “o trabalho não prejudica as crianças”. E só não descriminaliza o trabalho infantil “porque seria massacrado”.

“Posso confessar agora, se bem que naquele tempo não era crime. Eu, com nove, dez anos de idade, quebrava milho na plantação e quatro, cinco dias depois, com sol, ia colher o milho. Não fui prejudicado em nada“, disse o presidente brasileiro numa transmissão em direto na sua página do Facebook.

“Quando alguma criança de nove, dez anos, vai trabalhar em algum lugar, está cheio de gente falando que é trabalho escravo, trabalho infantil“, afirmou Bolsonaro. “Agora, quando estão a fumar um paralelepípedo de crack, ninguém fala nada.

“Então, o trabalho não atrapalha a vida de ninguém”, sustenta o presidente brasileiro.

“Fique tranquilo que não vou apresentar aqui nenhum projeto para descriminalizar o trabalho infantil, porque eu seria massacrado. Mas quero dizer que eu, meus irmãos, com essa idade, trabalhávamos no campo. Trabalho duro”, acrescentou o chefe de Estado brasileiro, segundo qual “o trabalho dignifica”, independentemente da idade.

O trabalho dignifica o homem e a mulher, não interessa a idade”, sustenta Bolsonaro, usando uma expressão que evoca a da placa à entrada do campo de concentração de Auschwitz.

Há no Brasil quase dois milhões de crianças e adolescentes que trabalham, segundo os últimos dados estatísticos do país, citados pela Globo. Desse universo, cerca de metade  trabalha ilegalmente.

As declarações do governante não foram bem vistas pela associação dos magistrados do Brasil, Anamatra, que realça que a infância “é para estudar e brincar”. “Insiste o Presidente da República em condenar a infância e a adolescência brasileiras ao surrado argumento do ‘ou trabalha, ou vai roubar'”.

O presidente brasileiro “demonstra, assim, desconhecer por completo a realidade de mais de dois milhões de crianças massacradas pelo trabalho

em condições superiores às suas forças físicas e mentais, dos mais de duzentos óbitos e dos mais de 40 mil crianças e jovens que sofreram mutilações e deformações decorrentes de acidentes de trabalho entre 2007 e 2017″, salienta a associação.

Também o Ministério Público do Trabalho do Brasil partilhou no Twitter, uma série de mensagens contra o trabalho infantil, através da campanha “Bom Trabalho Pra Você”, em defesa do trabalho digno no país sul-americano.

Lugar de criança é na escola. O trabalho infantil, proibido pela legislação brasileira, prejudica o desenvolvimento psicológico e físico da criança. O trabalho infantil também perpetua o ciclo da pobreza: quanto mais precoce é a entrada no mercado de trabalho, menor é a renda obtida ao longo da vida adulta”, escreveu o Ministério Público do Trabalho.

Após a repercussão negativa dos seus comentários, Jair Bolsonaro usou as redes sociais para responsabilizar a esquerda pela polémica.

A esquerda está a atacar-me por defender que os nossos filhos sejam educados para desenvolver a cultura do trabalho desde cedo. Se eu estivesse defendendo sexualização e uso de drogas, estariam a idolatrar-me. Essa é a verdade”, afirmou o chefe de Estado.

“Não devemos confundir o incentivo ao trabalho e à disciplina com exploração, abuso e abandono da escola. São coisas completamente distintas e todos sabemos disso”, acrescentou Bolsonaro.

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