Luís Forra / Lusa

Na mesma semana em que os sindicatos de motoristas ameaçaram parar o país com uma greve dos combistíveis, dois trabalhadores do setor mostram uma perspetiva diferente daquela que tem sido apresentada.

António Sousa e Nuno Tavares dizem não ter motivos para se juntar à paralisação e contestam os valores salariais que têm vindo a públicos.

A greve dos motoristas, convocada pelo Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM) e pelo Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), arrancou esta segunda-feira por tempo indeterminado.

O vice-presidente do SNMMP, Pedro Pardal Henriques, disse na manhã desta segunda-feira que os motoristas de matérias perigosas vão deixar de cumprir os serviços mínimos decretados pelo Governo, podendo assim levar à requisição civil, que António Costa já disse acionar caso seja necessário.

Entretanto, Pardal Henriques recuou. “Para já” os motoristas continuam a “cumprir serviços mínimos”, disse, citado pelo jornal Público.

Apesar da greve dos motoristas, há trabalhadores que não se juntam à causa, afirmando que aquilo que tem sido avançado pelos sindicatos nem sempre corresponde à realidade.

António Sousa, motorista ouvido pela SIC Notícias, disse que não faz greve, porque não ter motivos para tal. “Nunca fiz [greve], também não é desta vez que vou fazer”, disse, afirmando não conhecer nenhum motorista com um salário inferior a 1500 euros líquidos.

“Não [vejo motivos para a paralisção], esse é o problema, porque o vencimento na realidade é baixo só que nos temos umas certas regalias que, no fim, tiramos um vencimento razoavelmente bom. Que eu tenha conhecimento, principalmente na nossa empresa, não há ninguém que recebe líquidos menos do que 1500 euros”, afirmou.

Questionado sobre a duração da greve, António Sousa revelou ao canal que acredita que entre terça e quarta-feira estará tudo normalizado, acrescentando ainda que não vai faltar combustível “de certeza absoluta”.

Nuno Andrade, que leva já 12 anos de estrada, faz um relato semelhante ao de António Sousa em declarações à Rádio Renascença. Apesar de admitir dificuldades na profissão, o motorista não encontra razões para se juntar à greve.

“Não vou participar na greve porque não tenho muita razão de queixa e também [porque] a primeira abordagem pela parte do sindicato não é uma abordagem correta. Quando vim para aqui trabalhar, acordaram uns valores que não têm aumentado muito, mas têm-se mantido dentro disso”, explicou.

A situação dos motoristas “não é tanto como os sindicatos querem fazer parecer (…) Não está tão mal assim (…) [O salário] não é o que falam dos 630 euros

. Toda a gente sabe que nós no fim ganhamos mais do que isso só que o problema é que não os valores não estão regulamentados”, acrescentou Nuno Andrade.

Pelo que lutam os motoristas?

Depois da greve de abril, que os postos de combustível quase todo o país, os sindicatos conseguiram já algumas reivindicações: asseguraram aumentos salariais entre 120 e 240 euros por mês para janeiro de 2020, o subsídio para lidar com as cargas e descargas (para motoristas de matérias perigosas e motoristas de mercadorias) e conseguiram também a proibição de transporte de combustíveis em cisterna aos domingos e feriados.

De acordo com o jornal Eco, que elenca o que já foi alcançado desde abril, está ainda em curso o reconhecimento de profissão de desgaste rápido. Prometido está também a A intensificação da ação das entidades inspetivas às ilegalidades cometidas por empresas de transporte de mercadorias.

Contudo, os motoristas reivindicam mais, concluiu o diário de economia que revistou os avisos prévios de greve. De acordo com os documentos, estes trabalhadores querem ver garantido o reconhecimento oficial da categoria de motoristas de matérias perigosas, bem como a obrigatoriedade de acompanhamento médico anual.

O reconhecimento de estatuto de profissão de desgaste rápido (com redução de um ano à idade por cada quatro de exercício de funções) e a abolição de esquemas remuneratórios que visam a fuga aos impostos, são outros dos pontos em causa.

Escreve o Eco que os motoristas pedem ainda “respeito pelo direito à retribuição e ao trabalho diurno, noturno e suplementar, traduzindo-se num aumento substancial dos valores remuneratórios”.

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