A primeira-ministra britânica, Theresa May, acaba de apresentar demissão. “Anuncio que me demito como líder do Partido Conservador para que possa ser escolhido um sucessor”, declarou May.

May esteve esta manhã de sexta-feira reunida com Graham Brady, líder do grupo parlamentar do Partido Conservador no parlamento britânico, conhecido por Comité 1922.

“Anuncio que me demito como líder do Partido Conservador para que possa ser escolhido um sucessor”, declarou May aos jornalistas à porta da residência oficial, em Downing Street. “Fiz tudo o que era possível para convencer os deputados para apoiar o acordo com a UE. Infelizmente, não consegui. Tentei três vezes. Penso que fiz bem em persistir, mesmo quando as probabilidades de insucesso eram altas. Mas é claro agora para mim que é melhor para o país que um novo primeiro-ministro lidere esse processo”, acrescentou.

O rumor de uma possível demissão começou a circular depois de alguns ministros se terem juntado à revolta do Partido Conservador, segundo avançou o The Times. Esta quarta-feira, Andrea Leadsom —apoiante do Brexit, muito crítica de mais compromissos com Bruxelas —, demitiu-se de líder da Câmara dos Comuns, para não ter de estabelecer um calendário legislativo com que não concordava.

Caso May resistisse à clara vontade da maioria do partido de a afastar, o Comité 1922 iria dar início à votação formal para alterar as regras internas do partido. O objetivo seria permitir a votação de uma nova moção de censura interna. Theresa May sobreviveu a uma, no final de 2018, mas as regras dos tories determinam que ao superar a tentativa de afastamento o líder ganha um ano de imunidade interna.

A primeira-ministra britânica poderá permanecer no cargo mais seis semanas, enquanto os conservadores escolhem o seu sucessor, e, assim, ainda estaria em funções durante a visita do Presidente dos EUA, Donald Trump, ao Reino Unido, que acontece entre 3 e 5 de junho.

Neill Hall / EPA

À porta do nº 10 de Downing Street, discurso de demissão de Theresa May

“Sei que o Partido Conservador pode renovar-se nos próximos anos. Sei que conseguiremos fazer o Brexit”, afirmou Theresa May. A primeira-minitra terminou o discurso de forma emotiva: “Tenho orgulho de poder servir o país que amo”.

Enquanto primeira-ministra, não pode renunciar até que esteja em posição de dizer à rainha Isabel II quem esta deve nomear como sucessor. A demissão da liderança deverá tornar-se efetiva a 7 de junho, iniciando os procedimentos, que passam, numa primeira fase, por uma série de votações dentro do grupo parlamentar que eliminam progressivamente os vários candidatos a apenas dois, que depois serão sujeitos ao voto de todos os militantes do partido.

Jeremy Corbyn apelou, momentos depois do anúncio da demissão, a que se convocassem eleições gerais imediatas, alegando que May “não pode governar”. Já o partido conservador anunciou que o sucessor será anunciado antes de dia 20 de julho.

Theresa May, de 62 anos, assumiu o cargo em julho de 2016, pouco depois de os britânicos terem votado a favor do Brexit, no referendo de 23 de junho de 2016. Até agora, a líder não conseguiu reunir consenso quanto às condições para a saída da União Europeia entre a classe política, profundamente dividida sobre a questão, como também está a sociedade britânica.

O acordo de saída negociado com Bruxelas foi rejeitado três vezes pelos parlamentares, o que obrigou o executivo a adiar o Brexit até 31 de outubro, quando a data inicial era 29 de março, e realizar ainda as eleições para o Parlamento Europeu.

Na terça-feira, Theresa May apresentou um plano de “última oportunidade

”, que incluiu uma série de compromissos para tentar convencer os parlamentares britânicos. A tentativa foi em vão, já que o texto foi alvo de uma enxurrada de críticas tanto da oposição trabalhista quanto dos eurocéticos de seu próprio partido, levando à renúncia na noite de quarta-feira da ministra encarregada das relações com o Parlamento, Andrea Leadsom.

O projeto de lei, que Theresa May contava votar na semana de 3 de junho, não aparece no programa legislativo anunciado na quinta-feira pelo Governo aos deputados.

Os pretendentes à sucessão

Boris Johnson é o grande favorito das casas de apostas e ativistas de base do Partido Conservador. O ex-presidente de Londres disse que seria “naturalmente” candidato ao cargo de primeiro-ministro. “Bojo”, de 54 anos, foi um dos grandes arquitetos da vitória do Brexit no referendo de junho de 2016, e continua a ser a cara mais conhecida entre os defensores da saída da União Europeia.

Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, criticou a estratégia de Theresa May nas negociações com Bruxelas e acabou por deixar o Governo para defender uma rutura clara com a UE.

Andrea Leadsom é defensora do Brexit e era a ministra encarregada das relações com o parlamento até se ter demitido na quarta-feira, o que representou uma perda significativa para Theresa May. Andrea Leadsom, de 56 anos, passou três décadas na City de Londres. Começou a tornar-se conhecida na campanha do referendo, quando era secretária de Estado da Energia, por defender com paixão a saída da UE sem perder a calma e o sorriso.

Michael Gove, ministro do Ambiente, é um eurocético de 51 anos e desempenhou o papel de homem de confiança dos partidários do Brexit no Governo de Theresa May. Braço direito de Boris Johnson durante a campanha do referendo, “apunhalou-o” pelas costas em 2016, retirando o seu apoio enquanto se preparava para concorrer ao Governo, mas foi eliminado na votação dos membros do partido.

Jeremy Hunt tem 52 anos e é o ministro dos Negócios Estrangeiros. Apoiou a manutenção do Reino Unido na UE, tendo depois mudado de ideias por considerar que Bruxelas teve uma abordagem “arrogante” nas negociações.

Dominic Raab foi nomeado ministro do Brexit em julho, mas demitiu-se quatro meses depois, em confronto com Theresa May sobre o acordo de saída da UE feito com Bruxelas. Questionado sobre se se via em Downing Street, respondeu “nunca se diz nunca”.

Sajid Javid foi nomeado em 2018 para a liderança do ministério do Interior e ganhou o respeito dos seus pares com a gestão do escândalo “Windrush” – o tratamento dos imigrantes caribenhos que já estavam no Reino Unido desde 1948. Manifestou-se contra o Brexit durante o referendo de junho de 2016 e continua a ser um eurocético.

Amber Rudd acompanhou Theresa May na sua ascensão ao poder, apoio pelo qual colheu frutos, recebendo primeiro a pasta do Interior e depois a do Trabalho. Pode ser, contudo, prejudicada pela sua reputação de defensora da Europa.

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