O último número da revista das Testemunhas de Jeová (TJ) está a ser acusado de incentivar as mulheres a suportar casos de violência doméstica como forma de preservar o casamento.
Em causa está o último número da revista Sentinela, mais concretamente o artigo com o título “Respeite ‘O que Deus pôs sob o mesmo jugo”, no qual, segundo o Público, os autores da revista abordam os temas do casamento e do divórcio.
É nas páginas 10 a 14 da revista das Testemunhas de Jeová (TJ), num português abrasileirado, que os autores apontam situações em que “talvez ele costume bater nela, colocando a saúde e a vida dela em perigo” para lembrarem os religiosos do grupo que “passaram por situações parecidas e decidiram não se separar”, isto é, “preferiram perseverar e se esforçar para melhorar o casamento“.
O texto reforça a ideia de que os que optaram por continuar casados “dizem que esse sacrifício valeu a pena, principalmente depois que o marido ou a esposa se tornou adorador de Jeová”.
De acordo com o jornal, o artigo em questão indignou muitas ex-Testemunhas de Jeová, como é o caso de Ana Cláudia Sousa, expulsa da congregação há 16 anos depois de se ter divorciado sem “base bíblica”.
“Num país em que, como em Portugal, todos os meses morrem mulheres vítimas de violência doméstica, eles continuam a insistir que ela se deve manter no casamento?! Não acho isto admissível”, declarou ao diário a “desassociada” (membro que foi expulso).
Questionado pelo Público, Pedro Candeias, ancião e porta-voz da organização no nosso país, recusa que se possa ler no artigo qualquer incentivo à aceitação da violência. “As Testemunhas de Jeová […] consideram repulsiva toda e qualquer forma de violência, incluindo a violência doméstica, seja na forma física, verbal ou psicológica”, assegurou.
“As publicações das Testemunhas de Jeová explicam a informação da Bíblia, no entanto, é da responsabilidade de cada pessoa tomar as suas próprias decisões”, acrescenta.
“A mensagem é subliminar mas as pessoas ‘lá de dentro’ percebem-na: uma mulher que se mantenha com um marido violento é digna de elogio porque pode salvá-lo“, interpreta outro ex-membro das TJ, que durante sete anos foi ancião (equivalente a um padre), explicando ao jornal que estas edições da revista são lidas e discutidas parágrafo a parágrafo nas reuniões semanais entre anciãos e membros das TJ.
O ex-ancião considera ainda que o denominador comum é o desincentivo da denúncia às autoridades civis. “Isto passa-se sobretudo quando quem violenta é Testemunha de Jeová. Eles tentam preservar uma imagem de superioridade e qualquer coisa que lance vitupério sobre o nome de Jeová, é fortemente desaconselhada”, explica.
“A mensagem é claríssima: deixem-se estar porque Deus odeia o divórcio e há esperança que o marido se torne Testemunha de Jeová mesmo que para isso tenham de passar anos a levar porrada“, interpreta uma advogada que também foi expulsa da organização por ter integrado uma lista candidata a uma junta de freguesia.
Por sua vez, a socióloga Helena Vilaça vê outra interpretação, nomeadamente nos parágrafos que apontam a “imoralidade sexual” como base bíblica para o divórcio. “Toda aquela interpretação não está distante da conceção que a Igreja Católica tem relativamente ao casamento”, relativiza.
“As Testemunhas de Jeová até vão mais longe quando põem a hipótese de a mulher deixar o marido em situação de imoralidade sexual deixando-a livre para casar novamente”, acrescenta a investigadora da Universidade do Porto (UP), lembrando que os padres católicos também não andam propriamente a aconselhar mulheres a divorciarem-se.
Existem cerca de 600 congregações das TJ em Portugal. Em março deste ano, um ex-membro do culto religioso lançou uma petição, dirigida à Assembleia da República e à Comissão da Liberdade Religiosa, a pedir a extinção da Associação das Testemunhas de Jeová e o cancelamento da sua inscrição no registo de pessoas coletivas religiosas.
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Pergunta, e há testemunhas disso?