A atual guerra comercial entre a China e os Estados Unidos começou depois do atual presidente norte-americano, Donald Trump, anunciar a 22 de março de 2018 uma lista de tarifas superiores a 60 mil milhões de dólares sobre importações provenientes da China.

Em resposta a esta medida o governo chinês impôs taxas em mais de 128 produtos norte-americanos, incluindo na soja, uma importante exportação dos EUA para a China. Mais recentemente os EUA aplicaram o veto de empresas como Huawei ou TikTok.

Internamente, a conduta do governo Trump foi justificada como uma estratégia para mitigar as más práticas da China, como a concorrência desleal ou a transferência forçada de tecnologia que teria levado a um aumento do défice comercial e à perda de empregos nos Estados Unidos.

No entanto, muitos especialistas concordam que a luta entre os dois países tem uma implicação mais profunda: o confronto pela hegemonia mundial.

Hegemonia e ordem mundial

Ao longo da história sempre houve um país que, em virtude de sua força económica, atuou como potência hegemónica. Foi o que aconteceu com o Império Britânico durante os séculos XVIII e XIX, e com os Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial.

De certa forma, o poder hegemónico exerce o papel de “governo mundial”, valendo-se de sua preponderância económica, política, cultural e militar para ter, nas relações internacionais, a função de governo na política local.

Essa liderança é exercida através da complexa estrutura internacional de instituições, normas e acordos nos quais os países tendem a estar ligados.

Ter a capacidade de dirigir essa estrutura permite influenciar as ações das nações, uma vez que qualquer Estado que queira participar da ordem internacional deve operar de acordo com as regras estabelecidas.

Porém, as potências hegemónicas, assim como as ordens internacionais, não são eternas. A ascensão de algumas potências emergentes e o declínio de outras faz com que a ordem internacional prevalecente mude ao longo da história.

China, nova potência hegemónica?

Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos desempenharam o papel de super potência mundial. Foi a partir daqui que se fundaram o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e se estabeleceu o dólar como moeda central do sistema monetário internacional.

Posteriormente, essa ordem foi reforçada com uma complexa rede de instituições multilaterais em diferentes áreas, como a NATO ou a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Contudo, a partir da década de 80, o processo de globalização acelerou um deslocamento progressivo do peso económico do Ocidente para a região asiática, o que deu origem ao surgimento de economias de notável relevância, como é o caso da China. O país asiático tornou-se cada vez mais integrado na ordem internacional atual, dando entrada na OMC em março de 2001.

Para além disso, os próprios mecanismos de globalização criaram uma grande interdependência entre a China e os Estados Unidos, pois as empresas transnacionais americanas e, em geral, as ocidentais, deslocaram parte da sua produção para o país asiático, desenvolvendo um complexo sistema de cadeias globais de valor, que fez da China a “fábrica” do mundo

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Atualmente, com o plano Made in China 2025, o país asiático pretende tornar-se na maior potência tecnológica mundial. O objetivo deste plano é fazer um desenvolvimento na indústria de alta tecnologia e restringir o investimento direto de empresas estrangeiras e das suas tecnologias, serviços e produtos.

Paralelamente ao seu crescente papel económico, e desde que Xi Jinping chegou ao poder, a China passou de um papel passivo para um mais ativo nas relações internacionais. Essa estratégia materializa-se em projetos de impacto internacional, como a Nova Rota da Seda ou a criação do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura, surgindo como configurações multilaterais alternativas às lideradas pelos Estados Unidos.

Tudo isto é tido pelas autoridades americanas como uma ameaça à sua hegemonia. Assim, o país passou de uma estratégia em que tentou acomodar a China na ordem internacional, para outra em que o seu principal objetivo é conter a influência do país asiático. Assim se começaram criar condições para criar a guerra comercial mencionada.

Evitar avanços tecnológicos: missão fundamental

Nessa guerra, a administração Trump concentrou a sua estratégia em conter o desenvolvimento tecnológico da China. O fato de a potência asiática ter liderado o desenvolvimento de uma tecnologia inovadora como o 5G significa que será esta quem irá ditar os padrões e normas internacionais.

Segundo o The Conversation, esta tecnologia pode ser a base da quarta revolução industrial. É por isso que empresas como a Huawei, líder do setor, são alvo de ataques dos EUA.

As implicações dessa disputa são enormes: não é só o papel mais pró-ativo da China, que promove a criação de novas regras do jogo e instituições em todo o mundo, mas os próprios EUA renunciam às regras que eles próprios promoveram aquando da Segunda Guerra Mundial.

O futuro do sistema internacional, e a sua liderança, será determinado pela forma como as tensões atuais são canalizadas.

Considerando que China e os EUA são as duas maiores potências económicas do mundo, a guerra comercial travada entre os dois países acaba por envolver, indiretamente, diversos países e talvez alcance uma escala global.

O desfecho dessa disputa que agora pode tomar um novo rumo com a futura presidência de Joe Biden.

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