Mário Cruz / Lusa

O Presidente da República reiterou esta terça-feira nunca ter sido informado, por qualquer meio, sobre o alegado encobrimento na recuperação das armas furtadas de Tancos, e sublinhou que “é bom que fique claro” que “não é criminoso”.

“Nem através do Governo, nem através de ninguém no parlamento, nem através das chefias militares, nem através de quaisquer entidades de investigação criminal, civil ou militar, nem através de elementos da minha equipa, da Casa Civil ou da Casa Militar, nem através de terceiros, não tive”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa às televisões, à margem da Assembleia-geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.

O chefe de Estado, que é comandante supremo das Forças Armadas, disse que soube que “a defesa de um dos implicados fez questão de afirmar expressamente que não envolvia o Presidente da República”.

“Espero que seja a última vez que falo sobre a matéria, até porque se aguarda a todo o momento a acusação, no caso de ela existir, e o que haja a investigar contra quem quer que seja, sem qualquer limitação, seja investigado”, afirmou.

O Presidente sublinhou que se trata dos “mesmos factos, os mesmos elementos”, de “há três ou quatro meses, que são representados”. “Mas para que não restem dúvidas, por uma questão, não só de honra pessoal, mas porque estou aqui a defender a posição de Portugal, é bom que não esteja a defender a posição de Portugal na Assembleia-geral das Nações Unidas ao mesmo tempo que surge uma vaga dúvida sobre se o Presidente é criminoso, é bom que fique claro que o Presidente não é criminoso”, frisou.

Vasco Brazão disse que Marcelo sabia de tudo

A TVI noticiou esta terça-feira que o major da PJ-Militar Vasco Brazão se referiu, numa escuta telefónica, ao Presidente da República, como o “papagaio-mor do reino”, que, segundo ele, sabia de tudo. Segundo conta o jornal i, o Ministério Público (MP) terá entendido que Vasco Brazão se referia ao Presidente da República.

Entretanto, a defesa de Vasco Brazão veio garantir que a referência em causa não pretendia visar Marcelo Rebelo de Sousa. “Apesar de o processo ainda estar em segredo de justiça, em defesa da verdade e da honra do Major Vasco Brazão, esclareço que a referência ao ‘papagaio-mor do reino’, que consta de uma escuta de uma conversa entre o meu cliente e a irmã, está descontextualizada e não teve em mente atingir o Sr. Presidente da República”, começou por explicar o advogado Sá Fernandes, em declarações à TVI.

“De resto, o meu representado não tem conhecimento que o Sr. Presidente da República estivesse a par dos factos

relativos ao achamento do material de guerra furtado em Tancos”, esclareceu.

Em declarações à TSF, o jurista frisou que Vasco Brazão não tem qualquer indício de que Marcelo soubesse da operação. “Absolutamente perentório de que o major Vasco Brasão não tem nenhum elemento ou indicação ou suspeita de que o senhor Presidente da República tivesse conhecimento do que quer que fosse”, disse.

“Não metam o Presidente da República nisto, porque não tem nada a ver com isso”, pediu ainda Ricardo Sá Fernandes.

Sabe a SIC Notícias que existem várias escutas telefónicas no processo, mas que esta não consta da acusação. De acordo com a mesma estação televisiva, o MP vai concluir o despacho de acusação do caso do roubo de armas de Tancos até ao final desta quinta-feira.

O furto de armas de guerra nos paióis de Tancos foi divulgado em 29 de junho de 2017.

Um dos arguidos do processo é o ex-ministro da Defesa Nacional José Azeredo Lopes, que está proibido de contactar com os outros arguidos, com o seu ex-chefe de gabinete e com o antigo chefe de Estado Maior do Exército, general Rovisco Duarte.

Quase três meses após a divulgação do furto das armas, a Polícia Judiciária Militar (PJM) revelou o aparecimento do material, na região da Chamusca, a 20 quilómetros de Tancos, em colaboração com elementos do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé.

O processo de recuperação do material militar levou a uma investigação judicial, por suspeitas de associação criminosa, tráfico de armas e terrorismo no furto do armamento e durante a qual foram detidos o agora ex-diretor da PJM Luís Vieira e o antigo porta-voz da PJM Vasco Brazão e três militares da GNR, num total de oito militares.

Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.

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