Mário Cruz / Lusa
O secretário-geral do Partido Socialista (PS) e cabeça de lista por Lisboa, António Costa
O caso Tancos, cuja acusação foi deduzida esta quinta-feira pelo Ministério Público, aqueceu a campanha eleitoral, impulsionando uma troca de palavras mais acesa entre António Costa e Rui Rio.
O antigo ministro da Defesa Azeredo Lopes foi acusado de abuso de poder, denegação de justiça, prevaricação e favorecimento pessoal praticado por funcionário no “caso de Tancos” e proibido do exercício de funções.
O despacho, que tem 500 páginas, acusou ainda altas patentes do Exército e da GNR no âmbito do processo. Ao todo, são 23 as pessoas que vão responder perante a justiça.
Apesar de alguns partidos considerarem que este não deva ser uma tema pré-eleitoral, a verdade é que o caso de Tancos e a acusação do antigo governante socialista explodiu no 5.º dia de campanha, originando reações de quase todos os quadrantes políticos.
O líder do PSD, Rui Rio, foi uma das vozes mais críticas, apontando baterias diretamente ao secretário geral do PS e atual primeiro-ministro, António Costa.
O social democrata disse mesmo duvidar que António Costa, que lidera o Executivo, não soubesse da alegada encenação na recuperação das armas. “Perante um assunto desta gravidade o ministro da Defesa não avisa o primeiro-ministro? Sabemos que articulou com o presidente da concelhia do PS que também é deputado e não articula com o primeiro-ministro?”, questionou Rio, citado pela agência Lusa.
“Se articula — como é o mais provável — temos o problema de o primeiro-ministro ser conivente com aquilo que se passou. Se não avisou também temos um problema grave: um Governo em que os ministros não avisam o primeiro-ministro de tudo aquilo que se passa no ministério”, criticou, acrescentado que “é pouco crível que um ministro, seja ele qual for, não articule assuntos desta gravidade com o primeiro-ministro”.
Na resposta, que não se fez tardar, Costa acusou Rio de atingir a dignidade da campanha, acrescentado que o líder do PSD desiludiu aqueles que o consideravam uma pessoa com princípios. Sem comentar o teor da acusação, o socialista ripostou na mesma moeda, dizendo que “não é aos 58 anos” que reconhece a Rio “autoridade para fazer julgamentos morais” em matéria de conduta política.
“Ainda há dois dias todos os portugueses ouviram Rui Rio dizer que tinha como princípio fundamental não fazer julgamentos na praça pública (…) Ora, eu não mudo de princípios fundamentais de dois em dois dias e há cinco anos que digo aquilo que sempre achei ao longo de toda a minha política: na justiça aquilo que é da justiça e na política o que é da política. E quem sacrifica aquilo que são princípios fundamentais dada forma de estar na vida política envergonha-se a si próprio mais do que ataca quem quer atingir”.
Mas a troca de palavras, talvez a mais dura em toda a campanha até então, não se ficou por aqui. Rio fez questão de responder à resposta de Costa, considerando que o socialista de comentar o que não disse “porque não tem resposta” para o que lhe perguntou.
“O primeiro-ministro está a comentar aquilo que eu não disse porque não tem resposta para aquilo que eu disse. Não me antecipei a nenhum tribunal, nem quebrei a presunção de inocência de ninguém (…) Do ponto de vista político temos o direito e, até como partido de oposição, o dever de perguntar ao primeiro-ministro se sabia ou não sabia” [do encobrimento do furto de armas em Tancos], insistiu.
Tancos: o que caso que podia ser uma “série da Netflix”
Além do PSD, vários outros partidos comentaram o caso. A líder do CDS, Assunção Cristas, que comparou o caso a uma “telenovela” ou a uma “série da Netflix”, frisou que este caso deixou a esquerda “muito incomodada”.
Durante uma ação de campanha em Leiria, e ainda antes de se conhecer o teor da acusação, a líder centrista acusou o PS de “encobrir criminosos” e impedir “a justiça de funcionar”, exigindo “explicações públicas” ao primeiro-ministro.
Também os parceiros de esquerda do Governo falaram sobre o caso: Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, afirmou de manhã que “ninguém está acima da lei”, recordando que a “decisão é dos tribunais”; Catarina Martins, a líder bloquista, considerou o caso muito grave, concluindo depois que “os “responsáveis políticos mentiram numa comissão de inquérito” sobre o caso de Tancos.
André Silva, porta-voz do PAN, disse apenas que caso se comprove que o ex-ministro da Defesa teve responsabilidades dentro do processo deve “ser condenado”, salientando que o importante “é que a justiça desenvolva o seu trabalho”.
Nos partidos sem representação parlamentar, Maria Cidália Guerreiro, do PCTP/MRPP, disse que “o primeiro-ministro nunca assumiu responsabilidades políticas” no caso.
Já Santana Lopes, líder do Aliança, considerou-se “absolutamente esclarecido” sobre o caso de Tancos e Rui Tavares, fundador do Livre, disse que Tancos não é “um tema estratégico para estas eleições legislativas”, mas salientou que “é muito importante que o país tenha confiança nas suas instituições”.
Já a iniciativa Liberal, que tem Carlos Guimarães Pinto como líder, afirmou que o encobrimento da recuperação das armas furtadas em Tancos foi um “golpe de teatro” do Governo do Partido Socialista para “não perder votos”.
O caso e a acusação
O despacho de acusação, revelado esta quinta-feira, apontou 23 acusados, entre os quais Azeredo Lopes, que já anunciou que vai pedir a abertura da instrução, uma vez que se trata de uma acusação “eminentemente política”.
Os procuradores do MP sustentam que o antigo governante não só soube de toda a “encenação”, como também utilizou a situação para tirar proveitos políticos.
“A recuperação do material subtraído assumia um papel muito importante na imagem interna do Governo, numa altura em que se debatia com as nefastas consequências dos incêndios, que levaram, inclusivamente, à demissão da ministra da Administração Interna”, pode ler-se no despacho de acusação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), citado pelo jornal Público.
Azeredo Lopes, recorde-se, está acusação de quatro crimes: dois de denegação de justiça e prevaricação, um de abuso de poder e um de favorecimento pessoal.
O furto de material de guerra foi divulgado pelo Exército a 29 de junho de 2017. Quatro meses depois, a PJM revelou o aparecimento do material furtado, na região da Chamusca, a 20 quilómetros de Tancos, em colaboração de elementos do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé.
Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.
[sc name=”assina” by=”SA, ZAP” source=”Lusa” ]
espero que este assunto não fique em banho maria como a tragédia dos incendios de pedrogao grande!
que ajude as pessoas a pensar em quem vão votar para que se acabe de vez com governantes que vivem do marketing!