Nuno Veiga / Lusa

A ex-mulher de José Sócrates, Sofia Fava

Sofia Fava, ex-mulher de José Sócrates, foi ouvida durante mais de três horas no Tribunal Central de Instrução Criminal, no âmbito da Fase de Instrução da Operação Marquês. Um testemunho marcado por declarações que levaram o juiz Ivo Rosa e o procurador Rosário Teixeira a soltar algumas gargalhadas.

A inquirição a Sofia Fava, ex-mulher de José Sócrates, prolongou-se durante mais de três horas no Tribunal Central de Instrução Criminal (TIC) e teve como principal foco a compra do monte das Margaridas em Montemor-o-Novo, no Alentejo, em 2012.

A engenheira adquiriu a propriedade graças a um empréstimo de 760 mil euros concedido pelo BES, tendo Carlos Santos Silva, o empresário amigo de Sócrates que também é arguido na Operação Marquês, como fiador. O Ministério Público (MP) suspeita que o monte pertenceria de facto a Sócrates num esquema de branqueamento de capitais.

Entre os dados apontados na inquirição a Sofia Fava ressalta o facto de ela receber uma avença de cinco mil euros da XLM, empresa de Carlos Santos Silva. O MP acredita que este contrato era fictício e que tinha apenas como objectivo fazer circular o dinheiro que seria alegadamente de Sócrates.

Os pagamentos da XLM não tinham uma regularidade determinada e até 2013, foram feitos em cheque. “Era mais fácil. Para eu não me deslocar“, disse Sofia Fava em tribunal numa declaração que causou estranheza, já que o pagamento por transferência bancária seria muito mais ágil.

A ex-mulher de Sócrates também justificou as grandes transferências de dinheiro que foram feitos a partir de 2013 com o facto de se esquecer de pedir os pagamentos, e de juntar várias parcelas de uma só vez.

Quando foi questionada quanto ao facto de só a partir de 2013 terem começado a surgir estas transferências de grandes somas, Sofia Fava referiu “é porque eu sou lenta e só me lembrei disso nessa altura”, como cita o jornal i. Um momento que soltou gargalhadas na sala.

Sofia Fava também disse em tribunal que foi contratada para trabalhar apenas quatro horas por dia, a partir de casa, que não se deslocava à empresa, nem conhecia lá ninguém, nem tão pouco trocava emails

com colegas.

Assume que não tinha dinheiro para monte no Alentejo

“Tinha dinheiro para comprar o monte do Alentejo?”, perguntou, a dado momento, o juiz Ivo Rosa. E Sofia Fava assumiu que não tinha, mas alegou que estava à espera da herança do ex-companheiro, entretanto falecido, no âmbito da partilha dos seus bens. A engenheira garantiu que não falou sobre o processo de compra com Sócrates, nem com Carlos Santos Silva, até à altura em que efectuou o empréstimo no BES.

Após a inquirição, o advogado de Sofia Fava, Paulo Sá e Cunha, considerou que “no essencial” ficou “tudo esclarecido”, notando que há factos ocorridos há sete, oito e nove anos em que “não é possível” à sua constituinte recordar “tim-tim por tim-tim”.

Paulo Sá e Cunha refere ainda que nesta terça-feira serão ouvidas testemunhas arroladas pela defesa, que ajudarão o tribunal a perceber a questão da compra do monte no Alentejo.

Na fase inicial do processo, Sofia Fava disse nada saber sobre os alegados estratagemas de Sócrates e Carlos Santos Silva para ocultar vantagens financeiras obtidas de forma ilegal. Admitiu, porém, que Santos Silva lhe emprestou 150 mil euros para sinalizar a compra do monte no Alentejo e que a contratou para trabalhar numa das suas empresas, pagando-lhe uma remuneração elevada.

Alegou também ter a ideia de que Carlos Santos Silva era uma pessoa abastada, que vivia desafogadamente do ponto de vista financeiro.

Sofia Fava responde por um crime de branqueamento de capitais e por outro de falsificação de documentos em co-autoria com Sócrates e Santos Silva. A sua defesa já pediu ao juiz Ivo Rosa que fosse apreciada a nulidade da acusação, alegando “falta de fundamentação e ininteligibilidade”.

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