André Kosters / Lusa

O antigo primeiro-ministro e ex-líder socialista, José Sócrates

Começou por elogiar a “coragem” dos alunos, por o convidarem, e não se conteve num “auto-elogio”, nem nas críticas à austeridade do Governo de Passos Coelho. Durante mais de duas horas, numa conferência na Universidade de Coimbra, José Sócrates falou da teoria do Portugal “propositadamente atrasado” e de como o seu Governo foi o último com uma visão moderna de desenvolvimento.

Convidado pelos estudantes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) para a conferência intitulada “O projecto europeu depois da crise económica”, José Sócrates começou por elogiar quem lhe fez o convite, pela “coragem” e o “desassombro de não cederem ao politicamente correcto”.

Depois, não se poupou nas críticas à política da Troika, implementada após a queda do seu Governo. A “austeridade foi ajuste de contas ideológico”, defendeu o ex-primeiro-ministro, considerando que “como resposta à crise falhou em toda a linha”.

Para o antigo governante, é evidente que a Europa criou “uma narrativa” de que “a crise era da responsabilidade dos Estados”, quando, na verdade, “foi a crise que causou o défice e não o contrário”, considerou.

“É como se alguém estivesse num buraco e, para sair do buraco, escava mais, afundando-se ainda mais”, resume Sócrates, definindo a austeridade como uma “receita desastrosa”. “Este Governo deixou de escavar, abandonou a austeridade, e só aí é que se começou a verificar recuperação”, acrescentou no elogio ao Executivo de António Costa.

Mas Sócrates também se lançou em auto-elogios, destacando a falta de ambição dos decisores políticos e notando que Portugal “precisa de um projecto de desenvolvimento” como já teve quando foi primeiro-ministro, entre 2005 e 2011.

“Pode soar a auto-elogio, mas das últimas vezes que ouviram falar de um projecto de modernização foi quando havia um Governo – e eu liderei esse Governo – que apostava nas energias renováveis, na construção de barragens, na modernização e reconstrução das escolas públicas portuguesas, quando apostámos em mais ciência e mais investimento para a ciência, nas tecnologias de informação, isso era um projecto de desenvolvimento

“.

Abandono do TGV condena Portugal ao atraso

“O país precisa de recuperar essa vontade, essa ambição, de investimento em algumas áreas críticas, como se fez no passado”, declarou ainda, notando que o projecto do TGV “foi posto em causa por uma visão política” que o encara como um “desperdício” e “dinheiro deitado fora”. “Isso é um erro”, concluiu.

Sobre o abandono do projecto da ligação de alta velocidade ferroviária a Espanha e à Europa, Sócrates disse que é uma “ideia reaccionária” que revela “resignação e falta de ambição”.

“A ideia que a rede de alta velocidade em bitola europeia vai parar em Badajoz, com o país propositadamente atrasado e por uma decisão política que nos condena ao atraso, é das ideias mais reaccionárias que eu tenho visto a desenvolver no nosso país”, afirmou.

“É a ideia de resignação, [do] sim, devemos aceitar tudo isto e não devemos escolher ninguém que tenha um pouco mais de visão para a modernização e para o crescimento económico português”, criticou o antigo primeiro-ministro.

E quando questionado por um aluno sobre se esta sua intervenção pública é um sinal de que está a preparar uma candidatura presidencial, Sócrates reagiu notando que esse é assunto “de bruxaria”. E, portanto, mais vale deixá-lo “entregue aos videntes que fazem disso profissão”, constatou.

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