Pedro Nunes / Lusa

O ex-primeiro-ministro José Sócrates

O antigo primeiro-ministro José Sócrates afirmou esta segunda-feira que a única pressão que sentiu na Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre a PT foi da Sonae e através do à data CEO da empresa Paulo Azevedo, recusando assim qualquer interferência do antigo banqueiro Ricardo Salgado.

José Sócrates começou esta segunda-feira a ser ouvido, no Tribunal de Instrução Criminal, em Lisboa, no âmbito da Operação Marquês, processo em que é acusado de 31 crimes.

Ivo Rosa, juiz responsável pela instrução do processo, centrou o primeiro de quatro dias de interrogatório nas suspeitas relacionadas com o Grupo Espírito Santo e na alegada influência de José Sócrates na OPA falhada da Sonae sobre a Portugal Telecom (PT) e a venda da Vivo e compra da Oi, conta o semanário Expresso.

Perante o juiz, Sócrates afirmou que foi Paulo Azevedo, filho de Belmiro Azevedo e à data CEO da Sonae, e não Ricardo Salgado a pedir-lhe que o seu Governo votasse a favor da compra da PT pela Sonae, escreve o jornal Público.

Contou o antigo governante, segundo o mesmo diário, que recebeu uma chamada de Paulo Azevedo a pedir-lhe para a Caixa Geral de Depósitos votar a favor da OPA. Durante o depoimento, Sócrates atirou ainda ao Governo que lhe sucedeu: se algum dia a PT esteve capturada pelo GES foi durante o Governo chefiado por Pedro Passos Coelho, disse.

Sócrates negou qualquer influência na OPA falhada, tal como tinha já afirmado antes da acusação ser deduzida. O seu Governo, repetiu citado pelo Eco, tinha “uma posição neutral”, dando ainda conta que não deu qualquer orientação à CGD sobre o negócio.

A acusação sustenta que Sócrates terá sido subornado com 26 milhões de euros para favorecer o grupo liderado por Ricardo Salgado, nomeadamente impedindo o sucesso da OPA do Grupo Sonae à PT, recorda o Expresso.

Questionado sobre este ponto da acusação, o ex-primeiro-ministro mostrou indignação: “Isso é falso, injurioso e uma ignomínia”, reiterou, negando ter recebido qualquer verba do primo José Paulo Pinto de Sousa, que é também arguido no processo, estando acusado de dois crimes de branqueamento de capitais, ambos em co-autoria com José Sócrates, Ricardo Salgado, Helder Bataglia e Carlos Santos Silva.

Detalha ainda o Público que Sócrates disse que quando assumiu o Governo deixou de ver o seu primo, sublinhando nunca ter recebido qualquer montante deste.

Quanto à tese do Ministério Público, Sócrates considerou-a “delirante” e “alucinada“, contendo acusações “absurdas” segundo fontes ouvidas pela Lusa e pela SIC Notícias.

A “mente delirante” de José Maria Ricciardi

Durante o interrogatório, José Sócrates apontou também baterias a José Maria Ricciardi, antigo banqueiro e primo de Ricardo Salgado.

Ouvido em 2017 como testemunha, Ricciardi contou aos procuradores do Ministério Público que Sócrates e Salgado se reuniam com frequência, na época em que o socialista liderava o Governo. Estas reuniões, conta o Público, eram feitas com alguma cautela: ambos ambos deixavam os telemóveis fora das salas onde se encontravam. A mesma versão é apontada pelo jornal Observador, que refere “reuniões secretas”.

“É uma mente delirante”, disse Sócrates, quando confrontado com o depoimento de Ricciardi, que disse também em 2017 que Manuel Pinho foi indicado para ministro da Economia do Governo de José Sócrates pelo próprio Ricardo Salgado.

Quanto às acusações que envolvem Manuel Pinho, Sócrates voltou a negar as acusações de Ricciardi, dizendo sentir-se “estarrecido, injuriado e humilhado” com o depoimento do primo de Ricardo Salgado.

Quando quis falar em particular de Manuel Pinho, Ivo Rosa interrompeu-o, dizendo que a questão da nomeação de Manuel Pinho não faz parte da Operação Marquês.

“Basta olharem para a minha cara”

À saída do interrogatório, que durou cerca de cinco horas, Sócrates não quis prestar declarações, mas mostrou-se satisfeito. Questionado pelos jornalistas sobre a forma como decorreu o interrogatório, o ex-governante exclamou: “Basta olharem para a minha cara”.

José Sócrates volta esta terça-feira ao Tribunal de Instrução Criminal às 14h00. A sessão desta terça-feira deverá debruçar-se nas relações entre o grupo Lena e o antigo primeiro-ministro, segundo apurou a SIC Notícias.

Sócrates será o penúltimo arguido a ser interrogado na fase de instrução, estando previsto que Carlos Santos Silva preste declarações a 27 de novembro. No fim, o juiz Ivo Rosa decide se se os indícios recolhidos pelos procuradores do Ministério Público são suficientes para levar os arguidos a julgamento nos termos exatos da acusação.

A Operação Marquês teve início a 19 de julho de 2013 e culminou na acusação a 28 arguidos – 19 pessoas e nove empresas – a 11 de outubro de 2017 pela prática de 188 de crimes económico-financeiros.

[sc name=”assina” by=”ZAP” ]