Manuel de Almeida / Lusa

O director de infecciologia do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, Fernando Maltez, alerta que a pandemia de covid-19 está “descontrolada” na capital, defendendo que o desconfinamento “poderia ter sido um bocadinho mais lento”. Mas implementar um cerco sanitário em Lisboa “é impossível”, segundo o pneumologista Filipe Froes.

Lisboa contribui, nesta quarta-feira, com 302 casos de covid-19 na lista diária geral de 367 novos infectados. Trata-se de 82% dos novos contágios, mantendo-se a tendência das últimas semanas.

Para o infecciologista Fernando Maltez, a situação está “descontrolada”, mas “não é dramática”, conforme declarações à Rádio Renascença (RR). “Pode perfeitamente reverter com dois ou três passos atrás nas medidas de não restrição que tinham sido implementadas”, sustenta o médico do Hospital Curry Cabral.

“O desconfinamento poderia ter sido feito de uma forma um bocadinho mais lenta. Não se ter desacelerado nas medidas de restrição de uma forma tão rápida” , diz ainda Fernando Maltez.

O especialista explica a subida nos contágios com “alguma saturação das pessoas em relação ao confinamento, não só do ponto de vista do distanciamento social, mas também provocada pelas repercussões económicas e sociais, pela perda de empregos, pela necessidade de trabalhar para ganhar dinheiro“.

Por outro lado, também admite que há “comportamentos errados e irresponsáveis” de “determinadas partes da população, nomeadamente de pessoas mais jovens.

Para o pneumologista Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos e consultor da Direção-Geral de Saúde (DGS), o aumento de casos em Lisboa justifica-se também com o facto de ter “zonas onde a origem da população e as desigualdades sociais são mais evidentes e notórias, provavelmente do que no resto do país”, também conforme declarações à RR.

“Se associarmos a isso a elevada dimensão da Área Metropolitana de Lisboa (AML), a elevada densidade populacional e a grande mobilidade existente. Temos múltiplas centralidades na AML, e há uma necessidade de uma grande deslocação”, acrescenta Filipe Froes.

Regresso ao confinamento “deve ser a última solução”

O Governo anunciou, nesta semana, um recuo em termos de desconfinamento para Lisboa, retomando algumas restrições, nomeadamente com o encerramento de espaços comerciais às 20 horas e a proibição de consumo de álcool na rua.

“As próximas semanas irão dizer se estas medidas são suficientes ou se é preciso restringir ainda mais as liberdades”, destaca na RR Fernando Maltez.

Já quanto à possibilidade de um cerco sanitário a Lisboa que foi pedida pelo presidente da Câmara de Ovar, onde a medida foi implementada no início da pandemia, Filipe Froes entende que “é impossível”.

“É um terço da população de Portugal. Não é possível, não é exequível um cerco sanitário. Tinha que se voltar a ter um confinamento quase a nível nacional”, defende o pneumologista em entrevista à RR. “Não há neste momento capacidade de resistência económica para um regresso tão grande ao confinamento”, diz ainda.

Filipe Froes lembra também que “a dependência de grande parte do país a Lisboa é muito grande, em termos de prestação de serviços, em termos de localização de grandes distribuidores”.

“Será muito difícil ter a zona de Lisboa confinada e o restante país a viver em normalidade”, destaca, frisando que “o confinamento deve ser a última solução, a derradeira solução”. E a acontecer, será “uma coisa tristíssima”, constata.

“Temos de ter noção que ao voltar para trás, nós como povo, sociedade e país falhámos colectivamente. Não é Lisboa que falhou, não é o bairro X, Y ou Z que falhou”, conclui.

Filipe Froes deixa ainda algumas críticas aos governantes que passaram a ideia de “falsa segurança da situação em Portugal”, sem nunca mencionar declarações feitas pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro.

Para o pneumologista “o mais importante” é fazer as pessoas entenderem que “não é só a saúde delas que está em risco, mas é o impacto nelas e sobretudo em todos nós dessas medidas”. E “mesmo tendo formas ligeiras da doença, só sabemos quem vai ter formas graves no fim”, constata igualmente.

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