“Estamos perante o massacre do século XXI”. O lamento é de um médico que exerce na zona de Ghouta oriental, cidade síria que está a ser alvo de intensos bombardeamentos, por parte do governo de Bashar al-Assad, que não poupam escolas, nem hospitais.

“Está-se a destruir tudo, incluindo mercados, hospitais e escolas”, lamenta ao El Mundo o médico Habla Abu Bashir, que trabalha em Ghouta, na zona mais bombardeada pelo exército sírio, que tenta retirar aos rebeldes o poder que mantêm na cidade.

Seis hospitais da zona, que fica nos arredores de Damasco, foram bombardeados nas últimas 48 horas, com três a ficarem inoperacionais e dois a funcionarem parcialmente, indicou o coordenador regional do gabinete dos assuntos humanitários da ONU para a Síria, Panos Moumtzis, num comunicado.

Abu Bashir fala no “Dia do Juízo Final” e lamenta que o seu hospital não tenha condições mínimas para funcionar, com simples quartos convertidos em salas de operações, sem qualquer tipo de esterilização, nem equipamentos médicos básicos.

“A comunidade internacional deve assumir as suas responsabilidades” para “deter este rio de sangue e a fome”, apela o médico que fala em “crimes de guerra”.

Outro médico também ouvido pelo The Guardian define esta situação na Síria como “o massacre do século XXI”, considerando que se trata de puro “terrorismo”.

“O que pode ser mais terrorismo do que matar civis com toda a espécie de armas? Não é uma guerra. Chama-se um massacre”, queixa-se este médico ao jornal britânico.

Só desde domingo passado, morreram pelo menos 251 pessoas, incluindo 58 menores de idade, devido a ataques aéreos e de artilharia em Ghouta Oriental, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

Nos últimos três meses, o número de mortos ascende a “mais de 700 pessoas”, segundo o jornal espanhol, que cita “relatos locais”, notando que estamos perante “uma das maiores matanças da sangrenta guerra na Síria“.

As tropas de Al-Assad estarão, entretanto, a preparar uma operação terrestre de grande dimensão contra aquele que é considerado o grande bastião dos rebeldes.

O exército sírio tem contado com o apoio fulcral do Irão e da Rússia, que têm fornecido meios financeiros e militares para a guerra contra os rebeldes. Os russos terão também levado a cabo vários bombardeamentos aéreos na região.

Turquia ameaça cercar cidade de Afrine

Entretanto, noutro âmbito da guerra síria, cresce a tensão entre o regime de Assad e a Turquia.

O presidente da Turquia, Recep Erdogan, afirmou que o Exército do seu país prevê cercar a cidade síria de Afrine nos próximos dias, numa operação militar que visa atacar as Unidades de Protecção do Povo (YPG), aliados curdos dos EUA na luta contra o grupo Estado Islâmico na Síria, mas considerados “terroristas” pela Turquia.

As palavras de Erdogan levaram a uma resposta imediata de Assad que deslocou forças do exército sírio para o enclave curdo. A BBC nota que o governo de Assad recebeu um pedido de “ajuda militar” de uma “milícia curda que está a tentar repelir uma ofensiva das tropas turcas e dos aliados rebeldes sírios”.

A Turquia alega que bombardeou a zona e que conseguiu afastar as forças pró-governamentais sírias, ainda segundo a BBC.

De acordo com a agência noticiosa France-Presse (AFP), até hoje, as forças turcas tomaram o controlo de mais de 30 localidades, situadas maioritariamente nas zonas fronteiriças do norte da região de Afrine.

“Estamos a tentar criar um ambiente seguro e pacífico para as centenas de milhares de sírios que vivem na região”, refere Erdogan, aludindo aos mais de três milhões de refugiados que procuraram a Turquia para fugir à guerra civil.

As autoridades turcas argumentam que a ofensiva em Afrine, bem como a realizada em 2016 um pouco mais a leste, visa garantir a segurança dos territórios no norte da Síria, para permitir o regresso dos refugiados à Síria.

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