Chris Kleponis / EPA Pool
O Presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, e recandidato ao cargo disse, na quinta-feira, que venceria facilmente as presidenciais se contabilizassem “os votos legais”, advogando que está a ser ‘roubado’, sem apresentar, no entanto, quaisquer evidências.
“Se contarmos os votos legais vencemos facilmente, mas se contarmos os votos ilegais poderão tentar roubar-nos as eleições”, disse o chefe de Estado norte-americano, em conferência de imprensa na Casa Branca, em Washington.
Trump referiu inúmeras vezes que estava a ser ‘roubado’ e que havia tentativas do partido democrata de adulterar a contagem dos boletins de voto para impedir a vitória republicana. Contudo, durante o discurso Trump não apresentou quaisquer evidências que sustentassem as acusações que fez.
E insistiu: “Não podemos ter uma eleição roubada desta maneira (…) Já tinha dito muitas vezes que os votos postais iam terminar em desastre. Isto é uma fraude à grande escala e aumenta a cada dia”, disse, referindo-se aos boletins de voto que chegaram por correio.
Tal como escreve o semanário Expresso, o Presidente norte-americano perdeu alguma da vantagem em estados importantes porque grande parte dos eleitores republicanos votou presencialmente, ao passo que uma grande fatia dos eleitores democratas votou por correio devido à pandemia de covid-19.
“Não é uma questão de quem ganha: se eu ou o Joe. O que não podemos que uma desgraça destas [uma eleição roubada] aconteça no nosso país”.
O Presidente dos Estados Unidos terminou a conferência de imprensa e abandonou o púlpito sem intenção de responder às questões que os jornalistas estavam a tentar fazer.
ABC, CBS e NBC cortam palavra a Donald Trump
Algumas das principais estações de televisão dos Estados Unidos, como ABC, CBS e NBC, cortaram o discurso do Presidente no horário nobre, enquanto a Fox News, referência informativa do Partido Republicano, desmentiu as alegações de Donald Trump.
A divisão no canal de notícias conservador está a aprofundar-se cada vez que Trump repete as alegações de fraude eleitoral. “Não vimos nada que constitua fraude ou abuso do sistema”, disse o correspondente da Casa Branca para a Fox News, John Roberts, em direto, da mesma sala de imprensa em que o Presidente falara segundos antes.
Nos estúdios, em Nova Iorque, os apresentadores repetiam continuamente. “Não vimos nenhuma prova”. Horas depois, em programas de opinião noturnos, a apresentadora da Fox News, Laura Ingraham, deu uma volta de 180 graus e questionou num editorial o facto do voto pelo correio ser contado, afirmando que “a América deve encontrar o vencedor na noite das eleições ou na manhã seguinte”.
A mesma estação, o canal pago de notícias mais assistido, foi palco de grande tensão na noite da eleição de terça-feira, depois de declarar o rival de Trump, o democrata Joe Biden, vencedor do Arizona, antes que outros ‘media’ o fizessem.
A diferença de critérios na programação da Fox News reflete a tensão editorial que existe entre os jornalistas de uma empresa que vive um dilema: decidir entre continuar a apoiar a deriva do discurso de Trump ou a verificação das suas denúncias contra o sistema eleitoral.
Enquanto isso, as três principais estações de sinal aberto – NBC, ABC e CBS – cortaram e desmentiram veementemente o discurso de Trump em pleno direto.
“Temos de interromper Trump porque o Presidente fez uma série de afirmações falsas”, disse o jornalista Lester Holt, apresentador do NBC Nightly News, um dos três programas de notícias mais seguidos na televisão em sinal aberto.
“Simplesmente não houve prova”
O mesmo foi feito por David Muir, apresentador do noticiário mais seguido no país, com oito milhões de telespetadores diários, o ABC World News Tonight. “Simplesmente não houve prova, em nenhum desses estados, de que haja votos ilegais”, disse.
Em seguida, o jornalista explicou que, devido à pandemia do coronavírus, a votação por correspondência aumentou, quebrando recordes: mais de 100 milhões de norte-americanos votaram antes, o que prolongou o escrutínio.
A CBS, a terceira em audiências, iniciou um apuramento de factos quando Trump terminou o discurso e desmentiu todas as acusações de “fraude” e “corrupção do sistema”.
Mais contundentes foram os serviços de informação da rádio pública norte-americana, NPR: “Trump, mais uma vez, reivindicou falsamente a vitória nas eleições de 2020. Ele não ganhou. Os votos ainda estão a ser contados”, afirmou.
Por sua vez, os canais pagos de notícias CNN e MSNBC, conhecidos por posições mais liberais, comentaram duramente: “Que noite triste para os Estados Unidos”. Trump “está a tentar atacar a democracia com uma série de falsidades. Mentira após mentira após mentira”, lamentou o apresentador Jake Tapper.
O Washington Post, o New York Times e o Los Angeles Times também desmentiram o Presidente. Da mesma forma, a Justiça da Geórgia e do Michigan negou provimento aos primeiros processos movidos por Trump, que depende do apoio mediático da Fox News, que se vai diluindo, e de plataformas “alternativas” que surgiram nas redes sociais.
Biden continua a ganhar terreno
A discurso de Donald Trump surgiu numa altura em que o candidato democrata está a ganhar terreno em estados que podem ser decisivos, como é o caso da Pensilvânia, anulando a vantagem que Donald Trump levava.
Depois de garantir Wisconsin, Michigan e Arizona (que a agência noticiosa AP, com histórico sólido em eleições, dá como ganho), Biden tem agora 264 delegados ao Colégio Eleitoral, estando a seis da Casa Branca. O estado do Nevada (6 delegados), onde aumentou a diferença para Trump, pode garantir-lhe a Presidência.
Mas Biden tem crescido noutras frentes: na Geórgia, por exemplo, leva agora 917 votos de vantagem sobre Trump, num estado que lhe pode render a eleição, uma vez que vale 16 delegados ao Colégio Eleitoral e a contagem dos votos está quase a fechar.
Também na Pensilvânia, que era liderada por Trump, Biden tem ganho terreno.
Donald Trump, por sua vez, continua com 214 delegados eleitos, estando mais longe do número mágico que dá acesso à Casa Branca – 270 “grandes eleitores”.
Um mapa interativo com os resultados pode ser visto no site da Euro News.
Desta vez correu-lhe foi mal a aldrabice que queria fazer nas eleições!