Mário Cruz / Lusa

Ricardo Salgado, ex-presidente do BES

Um dos peritos independentes que avaliou a atuação do FMI em Portugal afirma que o colapso do BES e do Banif podia ter sido evitado, mas o “estatuto social” dos banqueiros e desejo de evitar mais um resgate levaram a ignorar problemas.

O economista francês Nicolas Véron, do think tank Bruegel, foi um dos peritos a que o Gabinete Independente de Avaliação do FMI recorreu para avaliar a atuação do próprio Fundo durante a recente crise em Portugal.

O especialista descreve ao Diário de Notícias que se os técnicos do FMI “tivessem insistido em avaliações independentes aos balanços dos grandes bancos, e se tivessem colocado mais ênfase aos problemas do sector, as quedas tardias do BES e do Banif talvez pudessem ter sido mitigadas ou até evitadas”.

Esta insistência não aconteceu para não hostilizar o Banco de Portugal – que não quis que essa função saísse “das mãos das autoridades portuguesas” -, mesmo apesar de a entidade ter já acumulado “lapsos de supervisão” nos casos BPP e BPN.

Além disso, “vários dos entrevistados salientaram que os principais banqueiros tinham um elevado status social em Portugal, pelo que o FMI não teria grande apoio caso questionasse a solidez das instituições”, conta o especialista.

Nicolas Véron refere que, em 2014, a perceção dos técnicos do FMI era de que as necessidades da banca iriam exigir um segundo resgate, o que poderia ficar comprovado caso tivesse sido feita uma análise mais rigorosa à banca portuguesa. Uma nova avaliação poderia impossibilitar uma saída limpa, à semelhança da Irlanda.

Em 2011, a troika emprestou 78 mil milhões a Portugal. No entanto, “dada a vontade de fechar o resgate e com o menor financiamento possível”, as necessidades da banca foram parcialmente ignoradas

e “apenas” 12 mil milhões foram alocados para o setor.

Isto quando, garante o especialista, vários entrevistados – do FMI, da Comissão Europeia e do governo português – apontaram ter dúvidas em relação à solidez do BES já em 2011.

Quanto ao Banif, a avaliação dos peritos contratados pelo FMI aponta que “as várias fragilidades do banco baseado na Madeira já estavam identificadas ” em 2011, na altura do desenho do programa, mas que, mesmo assim, “apenas em 2013 avançou um plano de reestruturação”.

O relatório da avaliação ao FMI foi publicado na semana passada, e a sua principal conclusão foi que o Fundo errou logo no diagnóstico ao problema português, excessivamente focado nas contas públicas e pouco na banca.

“A falta de assertividade do FMI na análise ao setor financeiro pode ter resultado de uma combinação de fatores ideológicos, políticos e práticos“, referem os peritos. Essa combinação, cita o Diário de Notícias, “criou relutância em considerar a nacionalização parcial ou total da banca comercial do país”, apesar de então já serem evidentes algumas más práticas.

ZAP