Desde o início da pandemia, a COVID-19 já chegou a mais de 160 países, com surtos na China, na Coreia do Sul, em Itália, no Irão, em Espanha e em França, e com os números a aumentar nos Estados Unidos (EUA) e no Reino Unido. Contudo, a maior parte dos países do mundo relatou poucos ou nenhum caso.
Como notou Jeremy Rossman, professor em Virologia da Universidade de Kent, em Inglaterra, num artigo publicado no Conversation, embora seja provável que o vírus ainda não tenha atingido e iniciado a propagação em todos os países, muitos daqueles que registam casos significativos têm fortes ligações com a China.
A disseminação de uma doença infeciosa a partir do seu país de origem é um processo que envolve diferentes fatores, mas, na base, está relacionada com o movimento de pessoas. Existem vários parâmetros que podem ser usados para estimar esse movimento: viagens (entrada e saída), migração, comércio e proximidade.
Tendo em consideração o número de casos coronavírus no contexto do fluxo de pessoas e mercadorias entre a China e outros países – com recurso a dados do dia 15 de março -, Rossman concluiu que é surpreendente existirem, àquela data, apenas 63 casos relatados em toda a Rússia. Esta quarta-feira, registam-se 147 casos.
Devido à forte ligação entre a China e a Rússia – ao nível de viagens, migração e comércio -, os números de casos registados neste último levantam algumas questões, especialmente porque outros países com relações comparativamente próximas (como o Japão, a Coreia do Sul e os EUA) têm uma propagação local expressiva.
Além disso, nos 15 países que compartilham fronteiras terrestres ou marítimas com a China, o número de casos é também baixo, destacando-se somente a Índia. Também nestes casos, continuou Rossman, por causa das relações comerciais e de viagens significativas com a China, o baixo nível de casos é surpreendente.
Além da Rússia, há outras regiões do mundo que relataram poucos casos de coronavírus. Existem várias razões possíveis para esse baixo número.
Uma delas prende-se com o facto de ainda estarmos nos estágios iniciais da pandemia da COVID-19. Outros dos motivos passam pelas fracas conexões e restrições de viagens, controle eficaz, ou a falta deste, nas fronteiras, o clima local ou até mesmo falhas na atualização de relatórios.
Muitos dos países em questão têm poucos voos para a China, situação potenciada pelas restrições chinesas no início do surto, que podem ter atrasado a chegada da COVID-19 a África. Nesse cenário, o número de casos pode aumentar significativamente nas próximas duas semanas devido à extensa transmissão em andamento de muitos países europeus com ligações de viagem ao continente africano.
Franck Robichon / EPA
No caso dos países com fortes ligações a China, houve desde cedo um extenso controle e vigilância de fronteiras, o que provavelmente controlou a propagação local da doença. Se essas medidas persistirem, esses países terão aumentos lentos nas próximas semanas.
Outro fator apontado por Rossman é que a maioria dos casos concentram-se a norte do trópico de câncer. O número de casos nos trópicos ou no hemisfério sul representa cerca de 1,3% da totalidade. Esta percentagem pode refletir as relações globais de viagens e comércio com a China ou os impactos do clima na transmissão da COVID-19.
Também é possível, continuou o autor, que a ampla gama de doenças infeciosas tropicais tenha ocultado a identificação de casos de COVID-19, que frequentemente apresentam sintomas leves e pouco específicos.
Se as conexões de viagem com a China forem o fator determinante, é provável que os casos aumentem nas próximas semanas. Se o clima está a afetar a transmissão do vírus, os mesmos podem permanecer baixos até temperaturas mais baixas chegarem ao hemisfério sul. Ou, ainda, se outras doenças estão a mascarar a COVID-19, o número de casos registados continuará baixo nesses países, embora os reais aumentem.
Os baixos níveis de casos relatados em muitos países podem dever-se ainda à falta de testes ou à falta de relatórios. Isso poderá levar a uma subnotificação do número de casos, comprometendo a capacidade de conter a pandemia. Como afirmou a Organização Mundial de Saúde (OMS), “não se pode combater um vírus se não se souber onde ele está. Encontre, isole, teste e trate todos os casos, para quebrar as cadeias de transmissão”.
Outros países podem simplesmente não ter a infraestrutura e os recursos necessários para realizar testes em larga escala, limitando a sua capacidade de controlar a doença no país e, potencialmente, criando pontos onde o vírus pode se espalhar de forma contínua.
Também é possível, continuou Rossman, que alguns países não estejam a relatar o real número de casos para preservar a sua reputação ou evitar dificuldades económicas que possam estar associadas às medidas de contenção.
Rossman salientou que, devido à estreita relação com a China, os números apresentados pela Rússia são surpreendentes. Apesar de ser possível que esses reflitam o controle nas fronteiras, existe a possibilidade de haver falha nos relatórios. Esse fator, combinado com as evidências recentes que o país esteve por trás de campanhas de desinformação sobre o COVID-19, podem causam preocupação, concluiu.
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Entre o registo oficial e realidade vai uma grande diferença, principalmente em ditaduras como a Rússia ou países manhosos de Africa!...