Miguel A. Lopes / Lusa

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa na sessão solene comemorativa do 43º aniversário do 25 de Abril

A decisão de assinalar a Revolução do 25 de Abril com uma sessão solene no Parlamento, com a presença de cerca de 130 pessoas, em plena pandemia de Covid-19, está a revoltar muitas pessoas. Além de uma petição online a pedir o cancelamento, o autarca de Cascais já disse que proíbe celebrações no seu concelho e o líder do CDS vai faltar à cerimónia.

O presidente do CDS-PP anunciou que não irá à sessão solene do 25 de Abril por discordar do modelo de comemoração, considerando que “dá um péssimo exemplo aos portugueses e não respeita os sacrifícios que estão a fazer”.

Francisco Rodrigues dos Santos recorda que o CDS-PP defendeu como alternativa uma mensagem do Presidente da República ao país, devido às restrições impostas pela pandemia.

“A Conferência de Líderes insistiu em manter a cerimónia, apesar da discordância do CDS, concentrando centenas de pessoas num espaço fechado, algumas delas pertencentes a grupos de risco”, lamenta o dirigente, considerando que esta decisão “dá um péssimo exemplo aos portugueses e não respeita os sacrifícios que estão a fazer”.

O líder do CDS salienta que tem sido pedido aos portugueses que “não participem em celebrações religiosas como a Páscoa, que não abracem os seus filhos, pais e avós, que não se despeçam dos seus entes queridos que morreram, que fiquem fechados em casa mesmo que isso tenha levado milhares ao desemprego, que fechem as empresas, e que não vão trabalhar ainda que não tenham como pagar as suas contas”.

“A democracia fora do Parlamento não pode valer menos do que a democracia dentro do Parlamento. O 25 de Abril não se fez para separar ainda mais as elites do povo, nem para que uns fossem mais livres do que os outros”, refere ainda Francisco Rodrigues dos Santos.

“Não sendo deputado, irei comemorar a data como todos os portugueses que estarão confinados e prescindirei do lugar que o Protocolo do Estado me reservaria“, aponta, acrescentando que apenas estará presente na sessão um elemento do grupo parlamentar do CDS-PP. “Portugal pede-nos que estejamos à altura do nosso povo, mas não que estejamos acima dele”, conclui.

A Assembleia da República (AR) decidiu na quarta-feira realizar a sessão solene do 25 de Abril no Parlamento, embora com um terço dos deputados (77 dos 230 parlamentares) e menos convidados. O gabinete do presidente da AR, Ferro Rodrigues, estima que estejam presentes cerca de 130 pessoas, contra as 700 do ano passado.

A decisão da conferência de líderes teve o apoio da maioria dos partidos, designadamente PS, PSD, BE, PCP e Verdes. O PAN defendeu o recurso à video-conferência, a Iniciativa Liberal a presença de apenas um deputado por partido, enquanto o CDS-PP e o Chega votaram contra.

“CDS e Chega não gostam sequer da ideia do 25 de Abril”

O conselheiro de Estado Francisco Louçã, um dos fundadores do Bloco de Esquerda, não fica surpreendido com as posturas do CDS e do Chega. “CDS e Chega não gostam sequer da ideia do 25 de Abril e, portanto, encontraram aqui um pretexto para mostrar às suas direitas muito extremadas

que são os mais fiéis representantes dos seus ideais”, constata Louçã no seu espaço de comentário político na SIC Notícias.

“A sessão que está prevista para o 25 de Abril resulta de uma actividade essencial na vida do Parlamento”, diz ainda o comentador, considerando que “o debate sobre se isto é adequado ou não é um pouco absurdo“. “A comparação que o CDS faz com um acto privado, que não é do Estado, que é uma cerimónia religiosa da Páscoa, não tem sentido”, conclui Louçã.

Autarca de Cascais proíbe celebrações

Há mais de 29 mil pessoas que estão contra a realização da cerimónia, exigindo o seu “cancelamento imediato”, conforme se vinca numa petição online. Pelas 13:30 horas deste sábado, a petição já tinha sido assinada por 29.614 pessoas.

“Não se admite que a Assembleia queira comemorar o 25 de Abril, juntando centenas de pessoas no seu interior”, quando “se pede a todos os Portugueses que se abstenham de sair de casa” e que “não exista concentração de pessoas”, referem os promotores da petição. “Não se admite que os senhores Deputados não cumpram aquilo a que obrigam” os demais portugueses, defendem ainda.

Entretanto, o presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreira, já alertou que “não vai permitir” as habituais comemorações do 25 de Abril no município, nem as celebrações do Primeiro de Maio e do 10 Junho.

“Quem quiser comemorar, comemora em casa”, alerta Carlos Carreira numa publicação no Facebook.

“É uma irresponsabilidade perigosa pelos sinais que transmitem ao povo português”, sublinha ainda o autarca, notando que é também “um desrespeito a todos os que têm estado em casa”.

No final de Março, a Associação 25 de Abril cancelou o tradicional desfile na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e pediu que os portugueses vão nesse dia à janela, pelas 15 horas, cantar a “Grândola, Vila Morena”, uma das senhas do Movimento das Forças Armadas (MFA) utilizada em Abril de 1974, um apelo a que se juntaram já o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, e o PAN.

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