Stephanie Lecocq / EPA

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte.

A imprensa holandesa ressalva os esforços de Mark Rutte, mas critica a falta de resultados concretos. A reeleição do primeiro-ministro holandês pode estar em risco.

O Conselho Europeu aprovou esta terça-feira um acordo para retoma da economia comunitária pós-crise da covid-19. Após cinco dias e quatro noites, os líderes europeus encontraram uma fórmula para distribuir pelas economias europeias 1,84 biliões de euros.

Muitos apontam que a demora nas negociações teve um nome: Mark Rutte. O primeiro-ministro holandês deixou evidentes as visões distintas do projeto europeu que os vários Estados membros têm.

Rutte liderou um bloco dos países ‘frugais’ – Holanda, Áustria, Suécia e Dinamarca -, que rejeitava a mutualização da dívida europeia e às transferências diretas entre países. A sua oposição não invabilizou a solução desenhada para garantir um financiamento “rápido e robusto”, capaz de responder às necessidades urgentes dos Governos e agentes económicos.

Embora seja visto como o líder das nações ‘frugais’, no seu país natal muitos acreditam que o chefe do Executivo não foi ‘frugal’ o suficiente. Rutte conseguiu alterar o saldo de subvenções e empréstimos no fundo de recuperação da UE, um desconto na contribuição anual da Holanda para o orçamento europeu e rendimento extra de direitos alfandegários.

No entanto, os holandeses consideram que esta foi uma vitória magra. “Rutte ganhou algumas batalhas, mas perdeu a guerra para o imperialista francês Macron”, escreveu o correspondente em Bruxelas da revista semanal EW. A publicação elogia, todavia, os esforços feitos por Rutte.

“O primeiro-ministro vendeu cara a pele, conseguiu alguma vantagem financeira para o nosso país e também adquiriu o apelido de ‘O Senhor Não’“, escreveu, por sua vez, o De Telegraaf, citado pela revista Sábado. “Os países do Sul foram capazes de obter benefícios financeiros significativos” num acordo que, segundo o jornal de maior circulação na Holanda, “é historicamente mau”.

O diário de centro-esquerda Volksrant comenta a boa prestação de Rutte nas negociações, mas realça que “para manter a União unida política e economicamente era necessário mostrar uma forma tangível de solidariedade com o duro golpe no sul europeu”.

“Os países do Norte da Europa queriam, com razão, tornar as subvenções dependentes de reformas, especialmente porque esses mesmos países fizeram cortes dolorosos após a crise financeira de 2008”, lê-se no diário holandês.

O POLITICO escreve que uma sondagem recente constatou que 61% dos eleitores holandeses não apoiavam o plano de recuperação da UE proposta pela Comissão Europeia (antes de ser alterado). Apenas 4% disseram estar totalmente satisfeitos.

O líder da extrema direita do Partido pela Liberdade, Geert Wilders, disse que o acordo de terça-feira foi um “resultado horrivelmente mau”. Outro partido de extrema-direita, o Fórum para a Democracia, disse que demasiado dinheiro era destinado aos países sulistas e denunciou o excesso de gastos no orçamento.

Em declarações ao diário holandês NRC, a deputada Anne Mulder disse que o primeiro-ministro “prefere não interferir nas pensões da Itália, mas os italianos estão a forçar-nos a fazê-lo. Como a Comissão Europeia não está a fazer o seu trabalho, Mark Rutte precisa de ser o bicho-papão para fazer cumprir essas reformas”.

O resultado das negociações pode ter um efeito devastador no futuro de Mark Rutte. O atual primeiro-ministro disse que só vai decidir em dezembro, a três meses das eleições, se vai continuar como líder do partido e, consequentemente, recandidatar-se ao cargo.

[sc name=”assina” by=”DC, ZAP” ]