O único reator nuclear em funcionamento em Portugal foi desmantelado numa operação sigilosa, em março deste ano.

Na edição desta segunda-feira, o jornal Público revela que o único reator nuclear nacional foi desmantelado numa operação secreta, em março deste ano. A exploração do reator era feita pelo Instituto Tecnológico e Nuclear, integrado no Instituto Superior Técnico, mas deixou de operar em maio de 2016, como previsto num acordo assinado entre Portugal, Estados Unidos e Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

Este ano, Portugal levou a cabo a operação secreta para transporte o combustível de urânio e outros produtos radioativos que estavam no núcleo do reator do campus tecnológico e nuclear na Bobadela para Tróia, a fim de seguir para os Estados Unidos.

José Marques, físico nuclear responsável pela operação, confirmou o transporte. “A operação teve de ser mantida secreta por razões de segurança. Foi tratada como um assunto de Estado”, revelou o físico, garantindo que quatro Ministérios – Ciência, Defesa, Administração Interna e Finanças – estiveram envolvidos na operação.

De acordo com o matutino, o reator nuclear começou por ser um marco e um primeiro passo em direção a uma série de centrais nucleares que Portugal pretendia desenvolver, como forma de produzir energia elétrica. No entanto, o reator estava parado desde março de 2016, data acordada com os Estados Unidos em 2007, quando aquele país forneceu o urânio utilizado no núcleo do reator.

Segundo o acordo assinado entre as três partes, Portugal só poderia devolver urânio aos norte-americanos se o reator parasse de funcionar até dia 12 de março. Se continuasse a operar – e tinha capacidade de o fazer até 2026, teria de ser o nosso país a encontrar uma solução para se livrar dos materiais radioativos.

Além disso, uma inspeção da AIEA detetou falhas técnicas e recomendou melhorias. José Marques adiantou ao Público que as obras poderiam ser no valor de dez milhões de euros. “Não mandaram parar o reator. Recomendaram é que fizéssemos diversas outras inspeções por causa do envelhecimento das estruturas. Decidimos parar preventivamente.”

Na sequência dessa decisão, a operação acabou por ser levada a cabo em março, depois de um longo processo de burocracia com os Estados Unidos.

O transporte dos 14 paralelipípedos “foi feito pelo Exército com condutores que tinham formação para fazer esse transporte”. “Tínhamos a necessidade de manter a operação confidencial e seria muito delicado estarmos a lidar com empresas exteriores“, contou José Marques.

A partir de Tróia, um navio norte-americano partiu com o conteúdo do reator para o Laboratório Nacional de Savannah River, na Carolina do Sul, pertencente ao Departamento de Energia dos Estados Unidos.

O jornal adianta que foram pagos cerca de 600 mil dólares, aproximadamente 530 mil euros, aos norte-americanos pela operação, mas estes são os únicos valores conhecidos. “Houve uma série de custos que foram absorvidos pelos diferentes ministérios do Governo”, disse José Marques, garantindo que o custo foi, contudo, inferior ao que está estabelecido no Programa Nacional de Gestão do Combustível Irradiado.

Falta agora saber como será feita a retirada do restante material nuclear. José Marques explicou que será feito um plano de desmantelamento ao longo de 2020 e 2021, com o apoio de peritos da AIEA, que irá ser aprovado pela Agência Portuguesa do Ambiente. Deverá ser posto em prática daqui a “uma dezena de anos”.

Os resíduos radioativos poderão ser armazenados no Pavilhão de Resíduos Radioativos do próprio campus tecnológico e nuclear.

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