Numa altura em que continuam a contar-se as mulheres que morrem vítimas de violência doméstica, o último videoclip de Valete, um dos rappers mais reconhecidos do país, está a causar polémica. Há quem considere que faz a “apologia da violência” e da “humilhação” sobre as mulheres.
O rapper já veio contestar a ideia, garantindo que o videoclip e a música não têm mensagem. “É só uma boa história, não tem mensagem”, sustenta Valete em declarações ao Diário de Notícias (DN) falando da “PIDE feminista”.
Em causa está a música “BFF” que vai integrar o álbum “Em Movimento” a lançar por Valete. No videoclip da canção, um homem surpreende a mulher na cama com o seu melhor amigo e insulta-a, acusando-a de viver à custa dele e empunhando uma caçadeira contra ambos.
Pelas redes sociais, são muitas as críticas ao videoclip e há até quem sublinhe que Valete “é o Neto de Moura da música portuguesa“.
O comediante Diogo Faro ironiza que é importante que, em 2019, ainda haja alguém a retratar a mulher como “propriedade do homem” e o homem “como um atrasado mental”.
“Não era aquele vídeo que faltava de certeza num país em que já foram mortas 20 mulheres este ano”, lamenta a artista Blaya em declarações ao DN, sublinhando que “o primeiro impacto” leva a concluir que “está a incentivar os homens a tratar mal as mulheres só por um motivo passional”.
Para Rita Ferro Rodrigues, da associação feminista Capazes, o videoclip “é extremamente perigoso” porque “coloca a mulher como dano colateral fútil de uma rixa entre machos e banaliza de forma inadmissível a violência e a misoginia”, como refere ao DN.
Também a cantora Sónia Tavares, dos The Gift, veio a terreiro criticar o videoclip de Valete, através de uma publicação no Instagram. “Anda aqui uma mulher a fazer campanhas contra a violência doméstica e tu baralhas-me isto tudo”, queixa-se. “És um tipo tão inteligente, escreves tão bem, fazes tão boa música, mas este vídeo não dá”, lamenta Sónia Tavares, frisando que as crianças que gostam da música dele “não vão perceber que este vídeo pode ser um abre-olhos”. “Uma voz activa como a tua era essencial na campanha contra a violência”, conclui.
Como resposta à cantora dos The Gift, Valete fala em “condescendência”, apelando-lhe que não confunda “luta feminista com PIDE”. “Onde é que está decretado que não se pode fazer ficção com violência? Como fiz em toda a minha vida, contei uma boa história, consegui levar para um registo cinematográfico e chegámos a este resultado”, considera. “É uma boa história e bom cinema”, acrescenta o rapper, atirando que “Sónia e a sua gang da PIDE decretaram agora que não se pode fazer filmes com violência e que não se pode fazer arte sem mensagem”. “Já agora manda também mensagens ao Scorcese
[realizador norte-americano] quando ele põe maridos traídos a matar esposas nos filmes dele”, conclui.Em declarações ao DN, Valete reforça estas ideias, salientando que a música não tem mensagem e que o videoclip ilustra apenas “um cineasta e um novelista a contar uma história”. “Criei uma personagem machista de propósito“, diz ainda o rapper, acreditando que não está “a reiterar estereótipos”.
“BFF” é só o primeiro episódio de uma novela rap
“O Valete nunca disse que não há machismo, que não há homicídio passional… A história aconteceu perto de mim. 90% do que estou a narrar ali é verídico. Não há ali juízo de valor”, constata ainda.
“Houve um grupo pequeno de feministas que não gostou – feministas de classe média alta, que não ouvem rap. E um grupo de machistas ignorantes que também não entendeu”, refere Valete, considerando que “não é a primeira vez que há má interpretação de músicas”.
Valete diz que a história do videoclip de “BFF” foi apenas “o pedaço de algo que vai ter continuação”. “Vai haver um desenvolvimento das personagens, vai ser uma série”, diz, frisando que “ao terceiro ou quarto episódio” será possível “perceber o registo que nunca viu na vida – um rapper a contar uma novela“. “As pessoas estão a ter dificuldade em lidar com a coisa nova”, realça.
Pelas redes sociais, também há quem defenda o rapper, queixando-se do “politicamente correcto”. Outros recordam outras músicas de intervenção de Valete, nomeadamente “Não te adaptes”, onde fala do papel da mulher, e “Roleta Russa”, onde apela ao uso do preservativo, para vincar como ele sempre teve cuidado em passar mensagens socialmente importantes.
Em entrevista ao Correio da Manhã, Valete chegou a admitir que o rap tem “um discurso sexista”, considerando que isso se deve à “escassez de mulheres a fazer hip-hop” em Portugal. “É importante que as mulheres ensinem o feminismo aos homens“, dizia. “Sabendo que os miúdos aprendem hoje muito através do hip-hop, se nós tivéssemos mais mulheres a fazer rap provavelmente até já estávamos mais avançados nesta questão do feminismo”, concluía.
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Não vejo este videoclip como uma "rixa entre machos" ou como uma forma de “humilhação” sobre as mulheres. Vejo-o como um retrato da vida real; como quando a dignidade de alguém é ofendida e são despertados os sentimentos mais horríveis que existem no ser humano. Nesta história foi um homem a passar por uma situação de ofensa, mas poderia ser uma mulher e, provavelmente, que os sentimentos despertados seriam os mesmos.
Segundo o artigo, o Valete refere que a história será uma "novela" e que irá haver um "desenvolvimento das personagens". No final do vídeo o personagem acorda e percebe que tudo não passou de um horrível pesadelo, mas na realidade a namorada traiu-o com o melhor amigo que se escondeu no armário. Poderá acontecer que no desenrolar da história o personagem ofendido aja de forma menos instintiva e mais racional.