Nuno André Ferreira / Lusa

De olhos postos nas legislativas de outubro, o Partido Socialista pediu os portugueses uma “maioria expressiva”, uma “grande votação”, mas sem nunca mencionar o termo absoluta. O líder parlamentar do PS focou-se nos parceiros de esquerda, ao passo que o secretário-geral dos socialistas se debruçou à direita.

Carlos César considerou fundamental uma vitória com “maioria expressiva” nas eleições legislativas para evitar bloqueios e inércias e reivindicou para o PS, não para o PCP ou Bloco, a responsabilidade pelos resultados na economia.

O líder parlamentar do PS falava discurso de abertura do último dia de Jornadas Parlamentares do PS, em Viseu, num discurso em que nunca assumiu a meta de uma maioria absoluta, mas em que procurou salientar duas ideias: O seu partido “aprendeu com os erros do passado” e precisa agora de obter uma “maioria expressiva” nas próximas eleições legislativas para “evitar bloqueios” e libertar-se de “inércias”.

O líder da bancada do PS começou por reconhecer que o atual Governo só cumpriu a legislatura graças ao apoio dos seus parceiros de esquerda no parlamento, o PCP, o Bloco de Esquerda e o PEV, mas retirou a estes partidos qualquer responsabilidade ao nível dos resultados da economia, especialmente em matérias de aumento do investimento, redução acentuada do défice e do desemprego, e melhoria da credibilidade internacional do país.

“Se é verdade que tivemos a ajuda da maioria parlamentar do PEV, do BE e do PCP para cimentar a recuperação social, tivemos por outro lado a difícil e bem sucedida missão de recuperar a confiança, de recuperar a economia, de equilibrar as finanças públicas, não permitindo aventuras orçamentais que nos levariam ao colapso e à desconfiança internacional”, sustentou, puxando os louros da economia para o PS.

E acrescentou: ” Passámos a crescer mais do que a maioria dos Estados-membros da zona euro e da União Europeia, gerámos centenas de milhares de empregos em Portugal – e isso não aconteceu por os empresários ou os investidores nacionais ou estrangeiros se terem encantado com o Governo anterior [PSD/CDS-PP de Passos Coelho], ou se terem enamorado pelos comunistas ou esquerda do Bloco”, apontou Carlos César.

De acordo com Carlos César, esse percurso do país “deveu-se a políticas no centro das quais esteve e está o PS sob a liderança de António Costa e deveu-se à garantia do que representa o PS na condução de políticas amigas da economia”.

“Contámos com a ajuda de outros partidos, mas o PS precisa de contar mais, precisa deter mais força para prosseguir este caminho sem bloqueios, sem constantes dificuldades, sem inércias. Para isso, precisamos de uma grande votação, de uma grande manifestação de confiança dos portugueses nas próximas eleições”, declarou o presidente do Grupo Parlamentar do PS, antes de se referir de forma indireta ao período dos executivos de José Sócrates. Segundo Carlos César, o PS “aprendeu com o passado – e a maior parte dos portugueses já não tem dúvidas sobre isso”.

Costa deixa elogios (tímidos) à coligação

“Valeu a pena”, disse, por sua vez, o secretário-geral do PS sobre o acordo conseguido à esquerda nesta legislatura, antes de auto-elogiar o seu partido.

“O país desejava mudar e foi possível no quadro parlamentar encontrar uma solução política alternativa. Valeu a pena. Ao contrário do que diziam, demonstrou-se que era possível estabilidade e possível cumprir com todos os nossos compromissos, instituições europeias e com os nossos parceiros com o PEV, PCP e BE”, apontou, na única referência que fez nas jornadas aos seus parceiros.

Assumindo ainda que “há muitos problemas para resolver no país”, Costa disse ter noção que o país não vive “num mar de rosas” e, por esse mesmo motivo é que o PS definiu uma “agenda para uma década”. “Só com estabilidade nas políticas podemos resolver os problemas estruturais. Os problemas não nos surpreendem, é necessário prosseguir as políticas. Queremos continuar e estamos prontos a continuar”, assegurou.

Depois dos parceiros de esquerda, foi a vez da direita. António Costa recordou que “olhando para trás até parece que tudo era fácil”. Mas não é: há quatro anos, recordou, “muitos achavam que era impossível”. O secretário-geral socialista recordou ainda – uma vez mais sem nomear – o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que andava de “iPad na mão” a “demonstrar que o diabo vinha aí”.

“Não demos cabo das finanças do país, recuperámos as finanças do país”, vincou.

Farpa a Marcelo e nega a Rio

Houve ainda tempo para uma referência ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. António Costa recordou que houve um tempo em que o chefe de Estado não acreditava no Governo. “Não venham dizer que era fácil, alguns até achavam mesmo que era otimismo, e tão otimismo que era até irritante. Agora podemos deixar a irritação para os pessimistas”, disse, numa farpa direta ao Presidente da República, que chegou a apontar o “otimismo irritante” do primeiro-ministro.

Depois de Passos Coelho e Marcelo, também Rui Rio foi visado – outra vez sem que o seu nome fosse proferido. O líder do PSD tem acusado Costa de se limitar a “navegar à vista” e tem reclamado reformas estruturais, predispondo-se para as negociar com o PS – mas Costa afastou, para já, esse cenário.

“A direita está sempre a dizer que é fundamental fazer a ‘grande reforma da Segurança Social’, como se a grande reforma da Segurança Social não tivesse sido feita por um Governo do PS em 2006 e 2007“, começou por dizer.

Frisando: “Como sempre dissemos, aquilo que mais afetava a sustentabilidade da Segurança Social não era a necessidade nem de plafonar pensões nem de permitir ‘opting out’, nem fragilizar o sistema público da Segurança Social. O que é fundamental para dar sustentabilidade à Segurança Social é aumentar o emprego e melhorar os rendimentos”.

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