José Coelho / Lusa

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães

A Ordem dos Médicos considera que a acreditação do curso de Medicina da Universidade Católica Portuguesa revela que a “esfera política prevaleceu sobre a esfera técnica”, evidenciando que há problemas que “colocam em causa a qualidade do curso”.

A acreditação do curso de Medicina da Universidade Católica como o primeiro a ser ministrado no Ensino Privado não recolhe consensos entre os representantes da classe médica.

O Conselho de Escolas Médicas Portuguesas (CEMP), que agrega representantes de oito instituições públicas, lamenta a aprovação do curso, alegando que houve cedência “a forte pressão de agentes políticos” e considerando que não contribui para “o reforço do ensino médico e da prática médica em Portugal, antes pelo contrário”.

Para o CEMP, fica claro que “a forte pressão exercida por vários agentes políticos, ao mais alto nível (…), terá sido, seguramente, a razão principal da tomada de decisão” de acreditar o curso.

Em comunicado, o CEMP evoca “o consenso” entre o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas, a Associação Nacional dos Estudantes de Medicina e a Ordem dos Médicos, que “têm o conhecimento adequado sobre o ensino médico em Portugal”, sobre “a não oportunidade” de um novo curso de Medicina.

“Não queremos a vulgarização e banalização do ensino médico e, sobretudo, a desadequação àquilo que são as reais necessidades do país”, advoga o CEMP, acrescentando que “aumentar a oferta formativa em Portugal contribui apenas para engrossar o número de médicos indiferenciados, sem saída profissional, que não seja a emigração ou a sujeição a contratações por empresas de fornecimento de serviços indiferenciados”.

“Tal só contribuirá para a descaracterização duma profissão que se quer sempre regida pelos mais elevados padrões”, invoca ainda o Conselho.

Ordem dos Médicos com “vários motivos de preocupação”

Já a Ordem dos Médicos (OM) defendeu que a acreditação do curso de Medicina da Universidade Católica  revela que a “esfera política prevaleceu sobre a esfera técnica”, alertando para problemas que “colocam em causa a qualidade do curso“.

“Tendo em consideração o condicionamento político prévio a que se assistiu nos últimos meses, e que oportunamente a OM lamentou, a decisão foi ao encontro do que era esperado, com a esfera política a prevalecer sobre a esfera técnica”, refere a OM em comunicado.

No primeiro pedido de acreditação feito pela Universidade Católica (UCP), há cerca de dois anos, a OM foi uma das duas entidades que deram parecer negativo ao novo curso.

Os pareceres negativos das duas entidades levaram a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) a “chumbar” o primeiro pedido de acreditação.

A Católica voltou a apresentar novo pedido de acreditação que foi também alvo de avaliação pela OM que enviou o seu parecer à A3ES em 14 de Agosto e que agora o torna público.

No parecer, a OM reconhece que houve melhorias, mas considera que ainda subsistem “vários motivos de preocupação (…) que colocam em causa a qualidade da proposta de ciclo de estudos da UCP”.

Um dos problemas apontados relaciona-se com os locais de estágio, alertando para o caso dos alunos que vão fazer “todo o estágio de Ginecologia/Obstetrícia e Pediatria em unidades sem bloco de partos e maternidade”, que estão previstos para os Hospitais da Misericórdia de Évora, Luz Setúbal, Luz Odivelas e Luz Torres de Lisboa.

No mesmo sentido aponta o estágio de Psiquiatria no Hospital Luz Arrábida “que não tem internamento psiquiátrico, baseando-se apenas em consulta externa, coartando deste modo as possibilidades de contacto com muita da psicopatologia mais grave”.

Outro dos problemas levantados prende-se com o Hospital Beatriz Ângelo (HBA) que tem sido gerido em regime de parceria público-privada pelo Grupo Luz Saúde, mas cujo contrato termina em Janeiro de 2022.

Com um novo concurso público, poderá surgir uma nova entidade gestora. Para a Ordem, tal mudança é “uma enorme ameaça ao ensino clínico

deste ciclo de estudos, dado que esta instituição de saúde é, indubitavelmente, aquela que reúne as melhores condições para assegurar um processo de ensino/aprendizagem com qualidade”.

A OM defende, por isso, que só se deveria viabilizar qualquer proposta alicerçada nesta instituição depois de conhecido o resultado do concurso.

“O protocolo com a Universidade de Maastricht foi celebrado por nove anos, o protocolo com a Luz Saúde por 15 anos, e o da União das Misericórdias por seis anos. É, deste modo, evidente que a proposta apresentada não garante a realização de estágios clínicos em ambiente hospitalar do SNS, e que as dúvidas sobre a continuidade do HBA no projeto para além de 2021 têm todo o fundamento”, conclui a OM.

Ministra fala em “oportunidade para médicos ficarem no país”

Já a ministra da Saúde, Marta Temido, fala da aprovação do curso de Medicina na Católica como uma forma de garantir a muitos jovens portugueses a oportunidade de se formarem no país.

“Sabemos que há muitos portugueses que procuravam, tradicionalmente, a formação superior nesta área em outros países. Esta oferta formativa será uma oportunidade para eles terem a sua formação cá dentro e, eventualmente, ficarem também no país“, aponta Temido.

Entretanto, o Sindicato Nacional do Ensino Superior manifestou a “preocupação” com a contratação dos professores do novo curso de Medicina, realçando a importância de que a Católica tenha um “corpo docente próprio”, “contratado devidamente e com qualificação avançada”, que alega não estar previsto na proposta.

Curso arranca em Setembro de 2021

O curso de Medicina da Universidade Católica deverá começar a funcionar em Setembro do próximo ano com cerca de meia centena de alunos, refere à Lusa a reitora da instituição, Isabel Capeloa Gil.

Aquele que será o primeiro curso de Medicina ministrado em Portugal por uma instituição privada foi desenhado para ter 100 alunos, mas no primeiro ano de funcionamento terá menos, revelou a reitora.

O valor das propinas ainda está a ser alvo de avaliação, sendo certo que será “mais elevado” do que o valor pago por um aluno de medicina de uma instituição pública.

“Vamos encontrar meios para que a propina, sendo mais elevada, possa ser compatível para que as famílias a possam pagar“, nota Isabel Capeloa Gil.

Além disso, lembra que “a Universidade tem um conjunto de bolsas por mérito e bolsas sociais”, apelando aos bons alunos para que se candidatem porque “ninguém deixará de entrar”.

O curso será leccionado em inglês e está aberto a estudantes internacionais.

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