Manuel de Almeida / Lusa
O presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários brincou esta quarta-feira no parlamento com o facto de ainda não ter sido substituído no cargo que ocupa há mais de dez anos, dez meses depois de o seu mandato ter terminado.
“Há um ano tinha dito que era a minha última presença e falhei. Tenho dito sistematicamente que é a minha última intervenção pública e sou sucessivamente desmentido pelos factos”, afirmou ontem Carlos Tavares, no início da sua intervenção na Comissão de Orçamento e Finanças sobre o plano de atividades da instituição relativo ao ano passado.
Foi já em setembro de 2015 que terminou o mandato de Carlos Tavares à frente do regulador dos mercados financeiros, depois de dois mandatos no cargo, ou seja, dez anos.
No entanto, a escolha do seu sucessor tem sido sucessivamente adiada,.
Depois de algum tempo em que este tema foi debatido mediaticamente, falando-se mesmo na necessidade de ser escolhida uma mulher, uma vez que a alteração à lei-quadro das entidades reguladoras estabelece que a presidência do Conselho de Administração de todos os regulares “deve garantir a alternância de género”, nos últimos meses a questão tem estado arredada do espaço público.
Além de Carlos Tavares, também os administradores da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) Carlos Alves e Maria dos Anjos Capote terminaram os mandatos no ano passado e não podem ser reconduzidos.
A exceção é a vice-presidente, Gabriela Figueiredo Dias, nomeada apenas em junho de 2015, substituindo Amadeu Ferreira, que faleceu em março do ano passado.
Entre os vários processos em que a CMVM interfere, a resolução do Banco Espírito Santo (BES), em 2014, foi aquele que recentemente mais captou as atenções para este regulador devido às críticas em torno da proteção dos investidores e tornou mesmo tensas as relações entre a CMVM e o Banco de Portugal.
No relatório anual de 2015, divulgado a semana passado, a CMVM adianta que detetou “indícios de fuga de informação
” por altura da preparação da aplicação da medida de resolução ao Banco Espírito Santo.O regulador disse ainda que quer terminar este ano as investigações relativas ao crime de abuso de mercado relacionadas com o BES e o Espírito Santo Financial Group (ESFG), que podem resultar em participações criminais.
Carlos Tavares contra concentração do setor bancário
Na audição parlamentar, o presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) mostrou-se contra a concentração no setor bancário, considerando que, além de os bancos ficarem mais difíceis de supervisionar, perdem também em rentabilidade.
Carlos Tavares disse que já há anos se debruça sobre o tema da consolidação bancária e que vários estudos mostram que “não existem economias de escala” na banca.
Ou seja, explicou, os bancos precisam de “uma dimensão mínima para rentabilizar”, mas a partir daí criam-se mesmo “deseconomias de escala”, ou seja, bancos demasiado grandes perdem rentabilidade.
“Quanto maiores forem os bancos, incorrem em mais riscos, são mais difíceis de supervisionar e sem contrapartida de eficiência”, afirmou, acrescentando que não conhece qualquer estudo que conclua o contrário.
Apesar disso, referiu, um estudo mostra que 37 bancos que existiam nos Estados Unidos da América em 1996 deram origem a apenas quatro.
A banca europeia e portuguesa tem estado em processo de concentração e tem sido mesmo falada a necessidade de acelerar este processo, considerando-se que com menos operadores e mais poderes de mercado é mais fácil os bancos confrontarem as baixas rentabilidades e as maiores exigências da regulação.
ZAP / Lusa
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