Alejandro Garcia / EPA

A pandemia de covid-19 está de regresso em força ao norte do país que, nos últimos dias, voltou a registar o maior número de novos casos. Há uma “preocupante transmissão comunitária” em algumas zonas e em Guimarães, a situação é tida como “descontrolada”.

Portugal registou, nesta segunda-feira, 1.949 novas infecções por covid-19, das quais 987 foram na região norte, com 749 na Grande Lisboa e 133 na região centro.

Do total de 17 mortes verificadas ontem, 12 foram a norte, 3 em Lisboa e Vale do Tejo e 2 no centro do país.

Nos últimos dias, tem-se verificado esta tendência de regresso do epicentro da pandemia ao norte, após uma acalmia durante os meses de Verão, depois de, na primeira vaga, o maior número de contágios ter estado também centrado nesta região do país.

Na passada semana, Portugal registou 13.947 novos casos de covid-19, dos quais 7.489 foram a Norte, conforme dados avançados pela TVI 24.

Vírus “está descontrolado” em Guimarães

Em Guimarães, a situação é “muito grave”, como ficou notório na reunião extraordinária da Protecção Civil Municipal, realizada nesta segunda-feira.

O vírus “está descontrolado no concelho”, alertou na reunião o director do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Alto Ave, Novais de Carvalho, em declarações citadas pelo jornal local O Minho.

“Estamos perante um período excepcional e grave, com consequências trágicas para a sociedade”, destacou o responsável do ACES do Alto Ave.

A delegada de saúde local, Fátima Dourado, define a situação como “má”, ainda segundo O Minho, numa altura em que já não é possível identificar as cadeias de contágio.

O director do Hospital Senhora da Oliveira, em Guimarães, também vincou na reunião que a unidade está “no limite da sua capacidade de resposta”.

Como medida preventiva, decidiu-se que os cemitérios do concelho vão estar fechados durante os dias 31 de Outubro e 1 de Novembro, o feriado dos Fiéis Defuntos que leva muitas pessoas a homenagearem os seus entes queridos já partidos.

“Tudo o que tivermos de fazer para reduzir o impacto de transmissão do vírus é importante, sobretudo quando envolve momentos de questões emocionais e famílias como o ‘Dia de Todos os Santos’”, destacou Novais de Carvalho na reunião da Protecção Civil.

“Preocupante transmissão comunitária”

O Agrupamento de Centros de Saúde Tâmega III – Vale do Sousa Norte, que engloba os concelhos de Paços de Ferreira, Felgueiras e Lousada, lançou um alerta urgente depois de terem sido assinalados cerca de mil casos na região na última semana.

As autoridades de saúde referem que há uma “preocupante transmissão comunitária”, como cita a Rádio Renascença, frisando que são desaconselhados aos residentes casamentos e outras festas familiares, bem como eventos com ajuntamentos de pessoas.

Da mesma forma, as pessoas são aconselhadas a terem maiores cuidados em restaurantes e cafés, onde “apenas devem retirar a máscara na altura em que estão efectivamente a tomar a refeição” e onde é preciso cumprir a “lotação máxima de 5 pessoas por mesa, de acordo com o disposto na última resolução de Conselho de Ministros”.

No Hospital de São João, no Porto, a situação também não está fácil. O vírus “está por todo o lado, quase não conseguimos identificar os surtos“, salienta ao jornal Sol o responsável pela gestão do serviço de urgência e medicina intensiva daquele hospital, Nélson Pereira.

A unidade registou, na última semana, um aumento dos internamentos, nomeadamente nos Cuidados Intensivos.

“A sensação é que as coisas estão de tal forma disseminadas que não há surtos. Quase toda a gente conhece alguém que está infectado ou em quarentena, o que é significativamente diferente do que aconteceu na primeira onda”, lamenta ainda Nélson Pereira.

Mau tempo “vai-nos empurrar para mais contágio”

Entretanto, o mau tempo previsto para esta semana é uma preocupação acrescida.

“De terça a quinta-feira vai chover bem, o IPMA já alertou para isso. As pessoas vão-se confinar no interior, os espaços fechados vão ser mais utilizados, por exemplo nos almoços no local de trabalho, nas universidades”, atesta ao jornal i o investigador Carlos Antunes que integra a equipa de Manuel Carmo Gomes na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, um dos peritos que tem colaborado com a Direcção Geral de Saúde (DGS).

“Se não houver a atitude de as pessoas almoçarem isoladas, a adaptação de levarem o almoço de casa e comerem no seu gabinete, por exemplo, o tempo vai-nos empurrar para haver mais contacto e mais contágio“, alerta Carlos Antunes, concluindo que “se não houver reforço das equipas e a meteorologia continuar desfavorável, vai favorecer a propagação”.

Entretanto, o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, constata no i a desilusão com a forma como as coisas estão a decorrer, considerando que falta “gestão operacional”.

“Foram muitos meses para planear uma resposta, montar o sistema e recrutar as pessoas, e em relação ao dia 1 de Abril chegamos aqui sem estarmos muito diferentes”, constata Mexia, lamentando que “temos os profissionais mais desgastados, a população mais saturada”.

“Não esperava que a pressão que está a haver chegasse tão cedo, não é um cenário bem encaminhado”, diz ainda, concluindo que “não vai ninguém ao volante” na gestão da pandemia.

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