Manuel de Almeida / Lusa

Depois dos elogios recebidos de França como bom exemplo no combate à pandemia de Covid-19, belgas, espanhóis e um médico italiano destacam as boas medidas tomadas pelo Governo português. Em Espanha, até se fala da “grande quantidade de testes” feitos em Portugal e há quem diga que têm muito a “aprender” connosco.

Há dias, um jornalista francês falava do aparente controlo da pandemia de Covid-19 que Portugal está a conseguir como “um mistério”, avançando diversas explicações, nomeadamente um factor geográfico por se encontrar na ponta da Europa, com apenas uma fronteira terrestre, precisamente com Espanha.

A televisão pública belga RTBF também concorda com aquela ideia, destacando que a localização de Portugal torna “mais fácil o controle das entradas no país”. O canal da Bélgica constata que Portugal parece estar a ser “muito menos tocado pela crise de Covid-19 que numerosos outros países europeus”, frisando que “tem 13 vezes menos mortes” do que Espanha, considerando a diferença populacional entre os dois países.

A RTBF refere que Portugal impôs medidas de confinamento e distanciamento social desde 13 de Março, quando ainda não tinha mortes e tinha apenas um número reduzido de infectados, considerando que avançou com as restrições de forma “antecipada” e mais prematura do que outros países, designadamente Espanha e Itália.

Além disso, os “portugueses auto-disciplinaram-se” perante o que estava a acontecer noutros países, refere a televisão belga, sublinhando que “migraram para as suas casas de campo, deixaram de sair para os cafés, os bares e os restaurantes e tiraram os filhos das escolas”. “Muitas escolas estavam fechadas por falta de alunos antes da interdição” decretada pelo Governo, tal como acontecia com estabelecimentos comerciais sem clientes, evidencia ainda.

A RTBF também destaca que António Costa “depressa percebeu que quanto mais tempo esta crise sanitária durasse, mais impacto teria sobre o turismo, um sector essencial para a economia portuguesa, o que seria dramático”. Por isso, o primeiro-ministro português “fez a escolha de tomar medidas radicais precocemente para sair o mais depressa possível desta situação de confinamento e fazer recuperar o turismo o mais cedo possível”.

Por outro lado, o Governo português tinha pleno conhecimento das dificuldades do Sistema Nacional de Saúde, “enfraquecido” pela crise económica de 2008, e procurou a todo o custo “evitar um cenário à italiana ou à espanhola, com serviços hospitalares submersos pelo afluxo de pacientes que o sistema de saúde português seria incapaz de gerir”, analisa a RTBF.

Elogiando ainda o reforço das medidas de restrição durante a época de Páscoa, nomeadamente com o encerramento dos Aeroportos de 9 a 13 de Abril, a estação belga destaca ainda a decisão de regularizar os cidadãos imigrantes com pedidos de residência submetidos ou a precisar de renovação. Por comparação, em Espanha os imigrantes têm que pagar os cuidados de saúde “do seu bolso”, enquanto em Portugal, a regularização permite-lhes terem acesso aos apoios sociais previstos para os cidadãos portugueses, bem como aos cuidados de saúde, repara a RTBF.

Esta decisão relativamente aos imigrantes também é elogiada pelo médico italiano Pietro Bartolo que ajudou na crise migratória em Lampedusa. “Bravíssimo”, considera o médico em declarações à TSF, salientando que “o primeiro-ministro português fez uma coisa extraordinária, que é inteligente sobre todos os pontos de vista“. “Do ponto de vista humano, de dar a oportunidade de um tratamento como residentes” aos imigrantes e que permite também “rastrear” e “conhecer a situação de saúde dessas pessoas, bem como mantê-las “sob controlo”, constata Bartolo, concluindo que “o primeiro-ministro português fez algo que é humano e é inteligente”.

Muitos testes e 1 médico por cada 200 habitantes

No The New York Times

, num artigo onde se fala da situação em Espanha, dá-se conta do elogio do epidemiologista espanhol Fernando Rodríguez Artalejo à estratégia portuguesa. “Actuaram eficientemente e ao mesmo que tempo que nós, mas quando a sua epidemia não estava tão amplamente espalhada“, constata este professor universitário, enquanto o jornalista Raphael Minder conclui que a resposta do Governo de Pedro Sánchez ao coronavírus “foi complicada pela natureza confusa do sistema político espanhol“, com os constantes braços-de-ferro com os 17 Governos autónomos.

No país vizinho, o jornal desportivo AS repara que “Espanha e Portugal partilham 1200 quilómetros de fronteira e a gestão e incidência do coronavírus foi totalmente diferente nos dois países”. Espanha apresenta a maior taxa de mortalidade do mundo, enquanto, em Portugal, ronda os cerca de 2%.

O AS avança que para explicar as diferenças entre os dois países pode estar o facto de o Governo português ter tomado “medidas drásticas desde o primeiro momento”, com a imposição do Estado de Alerta e o encerramento das escolas quando ainda não havia mortes.

Destacando ainda o “compromisso total da cidadania” dos portugueses, o AS frisa que Portugal só “contabiliza 84 detenções pelo incumprimento das medidas”, enquanto Espanha tem “mais de 3000”.

Outro dado que pode fazer a diferença é que Portugal apostou numa “grande quantidade de testes”, segundo o AS que cita dados do Secretário de Estado da Saúde, António Sales, que avançou que foram feitos cerca de 110 mil testes de diagnóstico no último mês.

O AS ainda nota que Portugal “é o 3º país da União Europeia com mais médicos por habitante (1 por cada 200)”.

Rio e o “patriotismo de verdade”

Outro factor que tem sido elogiado no país vizinho é a união política no combate à pandemia, com especial ênfase para o discurso de Rui Rio que desejou “sorte” ao primeiro-ministro e seu grande rival. O jornal Público espanhol destaca que o presidente do PSD revelou “patriotismo de verdade” num “discurso que parece simplesmente sensato para uma crise sanitária mundial com muitas mortes, mas que, em Espanha, seria ficção científica”.

O Público ainda acrescenta que o discurso de Rio fez eco nas redes sociais, com muitos espanhóis a “olharem com autêntica inveja” para a oposição do país vizinho. Há quem escreva que os espanhóis têm muito a “aprender” com os seus “vizinhos desconhecidos”.

A acompanhar um vídeo onde fez uma montagem com o discurso patriótico de Rio e diversas posições da oposição espanhola, questionando medidas do Governo ao longo da pandemia, o Público fala em “como fazer uma oposição construtiva”. Embora se enganem no nome de Rio, identificando-o como “José Sena Goulão, o líder da oposição portuguesa”, o jornal frisa que o presidente do PSD mostra aos espanhóis como se faz oposição em tempos de pandemia.

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