Hugo Delgado / Lusa

Os novos dados tornados públicos, nos últimos dias, sobre a transmissão do coronavírus podem significar que o foco do combate à propagação da infecção está errado – e que a economia vai ter que recuperar ainda mais lentamente. Tudo porque a covid-19 poderá, afinal, transmitir-se pelo ar.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) chegou a descartar a transmissão pelo ar, notando que o coronavírus “é sobretudo transmitido através de gotículas geradas quando uma pessoa infectada tosse, espirra ou fala” e realçando que estas gotículas “são demasiado pesadas para ficar suspensas no ar”.

Mas, agora, a OMS já admite a transmissão aérea depois de ter recebido um alerta de duas centenas de especialistas para esta possibilidade, com o apelo a uma revisão das recomendações que têm sido feitas.

Um estudo divulgado em Abril, feito num Hospital de Wuhan, na China, já tinha concluído que o coronavírus paira no ar em zonas onde estiveram pacientes e que pode haver riscos de infecção até 4 metros de distância.

Doenças como o sarampo e a tuberculose podem ser transmitidas pelo ar. A professora reformada Lisa Brosseau, especialista em Saúde Pública, considera num artigo na MIT Technology Review que os chamados “super-espalhadores” de coronavírus, que expelem maiores quantidades do vírus do que a maioria dos infectados, podem estar a propagar o coronavírus num padrão semelhante ao que acontece com a tuberculose.

Para o microbiologista Chad Roy da Universidade Tulane, nos EUA, esta “vantagem aérea” pode ser “uma das razões por que isto é uma pandemia e não apenas um pequeno surto como qualquer outro coronavírus”, conforme destaca na mesma publicação científica.

Certo é que uma potencial transmissão pelo ar implicará a manutenção de um período de confinamento mais prolongado, especialmente em países como os EUA e o Brasil, onde a pandemia está longe de estar controlada.

Isto significaria uma reabertura da economia ainda mais lenta, mantendo restrições bastante vincadas.

Num cenário destes, algumas das medidas actuais não seriam suficientes – não bastaria limpar superfícies, lavar bem as mãos e usar máscaras.

“A quantidade de tempo e esforço dedicados à higienização de todas as superfícies repetidamente tem sido uma enorme perda de tempo

“, considera a professora Lisa Brosseau, defendendo também que a ideia de que as máscaras serem a solução “mágica” é errada, especialmente se estivermos a falar de crianças.

A transmissão pelo ar torna locais como restaurantes, bares, escritórios, salas de aulas, ginásios e Igrejas, entre outros, pouco recomendáveis. Isto significa que podem ter que manter-se encerrados por mais tempo.

Quantas mais pessoas entrarem e saírem de um local fechado, mais provável é a possibilidade de aparecer algum infectado. Quanto mais tempo os indivíduos infectados passarem nestes locais, mais vírus ficarão concentrados no ar, o que será especialmente fatal para quem tiver que passar mais tempo nestes espaços.

Desta forma, será necessário controlar a quantidade de pessoas que frequentam estes locais, bem como limitar o tempo que essas pessoas passam neles, além de ser preciso aumentar ainda mais o distanciamento social.

Será preciso pagar a bares e restaurantes para “permanecerem fechados”, considera o especialista em aerobiologia, Donald Milton, um dos cientistas que assinou o alerta enviado à OMS, na MIT Technology Review.

Em espaços que precisam mesmo de estar abertos, como nas escolas, será preciso “aumentar a ventilação” e começar a usar “germicida ultra-violeta”, acrescenta Milton, frisando que será também necessário “escalonar as horas de trabalho e manter baixa a densidade nos transportes públicos ou abrir janelas”.

“E precisamos de usar máscaras”, conclui o especialista numa altura em que se antevê que no Outono haja um aumento das infecções.

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