Eric Neitzel / Wikimedia

Nuvens pirocumulonimbus a mais de 7km de altitude sobre um fogo florestal no Arizona, Estados Unidos

O pirocumulonimbo nunca tinha sido registado duas vezes no mesmo país nem no mesmo ano e pode ser o fenómeno raro e brutal que mostra como os incêndios no Centro de Portugal, a 15 de outubro, foram tão devastadores.

Segundo a TSF, pelo menos um dos incêndios de 15 de outubro pode ter formado um fenómeno raro que até agora, na Europa, só tinha acontecido em Pedrógão Grande: um pirocumulonimbo, isto é, uma tempestade causada pelo próprio incêndio.

Em declarações à rádio, Paulo Fernandes, doutorado em Ciências Florestais e Ambientais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e um dos peritos da Comissão Técnica Independente, explica que este fenómeno é, na prática, “uma enorme nuvem de fumo criada por um incêndio que sobe muitíssimo alto na atmosfera e que, ao encontrar uma zona fria, pode causar um downburst, além de relâmpagos e trovões que dão origem a outras ignições”.

Um fenómeno raro que nunca tinha sido registado duas vezes no mesmo país e no mesmo ano e que pode ter funcionado como catalisador dos fogos na zona Centro.

Ao Observador, o investigador explica que é preciso uma grande quantidade de biomassa para arder, um teor de humidade muito baixo, ventos muito fortes e um terreno inclinado: condições que estavam reunidas nesse fatídico dia 15 de outubro.

Para o professor da UTAD, será esta tempestade pirocumulonimba que, conjugada com a passagem do furacão Ophelia, terá provocado a devastação provocada pelos dois maiores incêndios, entre a Sertã e Mangualde e entre a Lousã e Tondela.

De acordo com o investigador, “um incêndio florestal típico não causa aquela destruição”, sendo necessário para isso acontecer “vento forte, com projeções a grande distância de materiais incandescentes”.

Nuvens pirocumulonimbus sobre um fogo florestal na Floresta Nacional de Angeles, Califórnia, Estados Unidos

Carlos Fonseca, outro elemento da Comissão Técnica Independente e investigador na área da conservação da natureza, conta à TSF que também andou no terreno a combater as chamas junto da sua propriedade e que nunca tinha visto um fenómeno desta dimensão.

Eram “labaredas com mais de 30 metros, com fumos de múltiplas cores”, que “andaram 100 quilómetros em 6 horas”, ou seja, um cenário com “uma dinâmica atmosférica estranha e nova”.

Ao jornal online, Paulo Fernandes explica que este fenómeno não está na origem dos incêndios mas pode ter surgido em consequência deles e torná-los ainda mais devastadores: os fogos tornam-se “menos previsíveis, com maior capacidade de propagação e com maior probabilidade de emitir projeções”.

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