As moratórias no crédito bancário, criadas em Março pelo Governo como resposta à crise pandémica, são “pior do que uma bomba relógio”, acreditam especialistas que alertam que, mais tarde ou mais cedo, vão ter consequências negativas para a Banca.

Mais de 700 mil famílias e empresas aderiram às moratórias bancárias criadas pelo Governo em Março passado, adiando, assim, o pagamento das dívidas e dos juros à Banca.

De acordo com dados do Jornal de Negócios, o crédito das empresas representa 28,8% do total das moratórias e o crédito à habitação cerca de 43%.

Mas se a medida de resposta à pandemia de covid-19 é vista como uma boa notícia no imediato, a médio prazo “é mais do que uma bomba relógio”, alerta o director do Lisbon MBA, Paulo Soares de Pinho, em declarações ao Negócios.

“Bomba relógio seria se tivéssemos situações más que apenas estamos a adiar. É pior que isso. Temos situações más que estamos a agravar“, lamenta Soares de Pinho.

Outros especialistas ouvidos pelo jornal concordam que as moratórias podem estar a “camuflar” casos de incumprimento que já vinham de antes da crise pandémica.

“Graças às moratórias, a situação parece estar artificialmente sob controlo. Mas é uma solução temporária”, aponta ao mesmo Negócios o professor Eric Dor, director dos Estudos Económicos da escola francesa IESEG.

“A expectativa é que após a crise e com uma forte recuperação, a maioria dos devedores seja capaz de voltar a pagar as suas dívidas. Mas isto é muito incerto. Há empresas que provavelmente já estão insolventes, mas a sua situação está a ser disfarçada pela moratória”, destaca Dor.

“As moratórias são, essencialmente, um meio de adiar a resolução de graves problemas que continuarão a existir”, constata ainda ao Negócios o professor do ISEG Tiago Cardão-Pito.

Parte das moratórias deverão acabar em crédito malparado e o economista Filipe Garcia alerta que “mais tarde ou mais cedo, terá de se enfrentar a realidade”, conforme declarações ao referido diário económico.

É “difícil saber como vai evoluir a situação, pois há muitos factores de incerteza”, mas “se se verificarem os piores cenários”, haverá “consequências directas e indirectas bastante penosas”, sustenta ainda Tiago Cardão-Pito.

Essas consequências directas serão “para a sustentabilidade e sobrevivência dos próprios bancos” e as “indirectas para a sociedade se os bancos deixarem de ser capazes de providenciar liquidez e financiar a economia portuguesa”, acrescenta o professor do ISEG.

O Governo começou por anunciar a duração das moratórias até Setembro deste ano, mas depois adiou o prazo até Março do próximo ano. Entretanto, já veio prolongar a medida até Setembro de 2021.

Portugal é dos países europeus onde as moratórias são mais longas, segundo um relatório da DBRS citado pelo Negócios.

“Estamos a ir longe demais”, considera Paulo Soares de Pinho que fala de “uma faca de dois gumes”.

O presidente do Banco Santander Portugal, Pedro Castro e Almeida, já tinha alertado que “o grande tsunami há de vir quando acabarem as moratórias“.

E o vice-governador do Banco de Portugal, Luís Máximo dos Santos, já avisou que é preciso começar a definir uma estratégia de saída das moratórias, uma vez que haverá pessoas e empresas que não conseguirão pagar as suas dívidas.

O ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, revelou, em entrevista ao Expresso, que o Governo já está a preparar uma solução para o fim das moratórias.

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