Mário Cruz / Lusa
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho
O presidente do PSD disse, esta segunda-feira, que o Estado falhou no apoio psicológico às vítimas do incêndio em Pedrógão Grande, adiantando ter tido conhecimento de que um suicídio ocorreu por falta desse apoio.
“Tenho conhecimento de vítimas indiretas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, em desespero”, sinal de que “não receberam a tempo o apoio psicológico que lhes devia ter sido prestado”, declarou Passos Coelho aos jornalistas depois de uma visita ao quartel dos bombeiros de Castanheira de Pera.
O líder do PSD afirmou ter conhecimento de pelo menos um suicídio, ocorrido na região, praticado por um familiar de pessoas que morreram no incêndio que deflagrou na semana passada em Pedrógão Grande.
Em reação a estas declarações, o presidente da Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC) já afirmou que não há, até hoje, “nenhum caso de suicídio com ligação” direta à zona afetada pelo incêndio.
“Não há, até hoje, nenhum caso de suicídio com ligação a essa zona”, disse à Lusa o presidente da ARSC, José Tereso.
Por sua vez, o primeiro-ministro afirmou que “todos” têm de estar “revoltados” com as consequências do incêndio, prometeu esclarecimento total sobre as causas e prioridade à reconstrução, mas disse recusar polémicas com o presidente do PSD.
“Não vou tirar conclusões antecipadas face aos relatórios que foram solicitados, mas ninguém pode deixar de estar revoltado com o facto de, até este momento, termos perdido 64 vidas humanas num incêndio daquela dimensão. Todos nós temos de ser exigentes para esclarecer tudo o que há para esclarecer. Nada poderá ficar por esclarecer”, respondeu António Costa, no final de uma reunião com os presidentes das câmaras do Barreiro, Almada e Seixal sobre o arco ribeirinho da margem sul do Tejo.
“Não vou estar aqui a entrar em debate com o líder da oposição, nem creio que seja isso que os portugueses esperam do Governo”.
“Os portugueses esperam que o Governo se empenhe no esclarecimento de tudo, que contribua para a reconstrução e para a reposição da normalidade da vida daquelas populações. Neste momento não vou contribuir com polémicas, [porque] não tenho teses, não tenho pontos de vista”, declarou.
Segundo António Costa, o seu dever “é criar as condições para esclarecer tudo e total disponibilidade para, tal como o líder da oposição propôs, a Assembleia da República crie uma comissão técnica independente“.
“E que o Ministério Público tenha toda a informação disponível para realizar o seu inquérito. Vou aguardar serenamente as conclusões dessas informações. Mas eu não respondo antes de perguntar, nem concluo sem ser em função das informações que obtenho. Sobre polémicas, o líder da oposição fará as polémicas que entende, mas comigo não fará, porque não tenho um ponto de vista a defender”, acrescentou.
Reconstrução e esclarecimento são as prioridades
Em relação às consequências da tragédia, António Costa defendeu que o seu executivo está concentrado “em duas prioridades”.
“Em primeiro lugar, a reconstrução e a reposição da normalidade nos territórios atingidos, razão pela qual no final desta semana teremos concluído o levantamento das necessidades em matéria de habitação e de infraestruturas. Já estão obras no terreno relativamente a pavimentos que foram destruídos”, apontou, a título de exemplo.
Também de acordo com o primeiro-ministro, estão já no terreno equipas da Segurança Social a prestar apoios sociais de emergência e, por outro lado, hoje, em Bruxelas, o ministro do Planeamento, Pedro Marques, reúne-se com a Comissão Europeia para agilizar apoios comunitários, designadamente em sede de apoios à reconstrução de empresas.
O Ministério da Agricultura – prosseguiu – está a trabalhar para “assegurar a reposição da capacidade produtiva, garantindo ao mesmo tempo a alimentação de animais após a destruição de pastos”.
“Numa segunda linha, queremos o esclarecimento cabal, seja daquilo que nós próprios [Governo] devemos obter de informação, seja ao nível de inquéritos independentes: O do Ministério Público, e a iniciativa do PPD/PSD junto da Assembleia da República. Daremos todo o apoio e estamos disponíveis para colaborar ativamente”, referiu.
O primeiro-ministro afirmou também aguardar para hoje mesmo os esclarecimentos da rede de comunicações SIRESP SA sobre o que efetivamente terá ocorrido com o sistema no sábado, dia 17 de junho, matéria em que já foram assumidas falhas por parte da Autoridade Nacional de Proteção Civil.
“Isto é fundamental porque temos de apurar todas as questões relativas a este acidente, primeiro porque o devemos à memória daqueles que faleceram, ao respeito que temos de ter pelas famílias e amigos das vítimas, e também porque temos esse dever com as populações daquele território e para todo o país. É preciso saber o que se passou para que, de futuro, não volte a acontecer”, sustentou António Costa.
De acordo com o líder do executivo, em concreto, importa aguardar pela resposta do IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera) sobre a especificidade do evento de natureza meteorológica que ocorreu no dia 17 naquela zona do país.
“Aguardamos igualmente que a GNR apresente o resultado final do inquérito que já formulou e aguardamos para hoje mesmo a resposta da SIRESP SA à ministra da Administração Interna [Constança Urbano de Sousa] sobre o funcionamento do sistema”, acrescentou o líder do executivo.
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Nao tem vergonha nenhuma