A polémica com o obstetra envolvido em vários casos de bebés que nasceram com malformações graves, nomeadamente um bebé sem parte do rosto e sem parte do crânio, vem alertar para uma realidade em que apenas 20% dos médicos estão preparados para fazer ecografias pré-natais.

A grande maioria dos médicos obstetras do país não têm a preparação necessária para fazerem ecografias. É a própria Ordem dos Médicos (OM) que o reconhece, em nota enviada ao Expresso que avança que “menos de 20% dos 850 obstetras” do Serviço Nacional de Saúde (SNS) têm “aptidão” para fazerem ecografias pré-natais. É no SNS que está “a maioria” dos especialistas ginecológicos e obstetras que existem no país.

Obstetra deixou nascer menino sem ânus e sem pénis

Artur Carvalho, o obstetra envolvido em vários casos de bebés que nasceram com malformações graves, não teria competências para fazer ecografias, apesar de estar no “topo da carreira médica no SNS”, como avança o Expresso.

O médico faria, alegadamente, ecografias com uma duração de apenas 5 minutos quando o tempo recomendado será de 40 minutos no primeiro trimestre.

Entre as situações de malformações graves imputadas à alegada incompetência do obstetra está o caso de um menino que nasceu “sem ânus, sem pénis”, “com a bexiga de fora” e com espinha bífida, como conta a mãe, Ana Lúcia Cabral, ao Correio da Manhã (CM).

Ana Lúcia Cabral revela ainda que o médico lhe disse, às 20 semanas de gravidez, que o bebé era uma menina. Uma semana antes do nascimento, na quarta ecografia, disse-lhe que, afinal, era um menino e que teria “uma surpresa” quando ele nascesse.

Esta mãe foi seguida pelo obstetra na Clínica Padre Cruz, em Almada. O bebé nasceu em 2010 e, logo aos dois dias de vida, foi sujeito à primeira operação. Entretanto, foi alvo de mais “13 operações reconstrutivas” e, actualmente com 9 anos, “é praticamente autónomo”, embora precise de limpar “de três em três horas, a algália, para onde faz as necessidades”.

Entretanto, o bebé sem rosto continua com prognóstico reservado

. Recentemente, descobriu-se que além de não ter nariz, nem parte do crânio, também é surdo.

Este caso veio dar visibilidade ao obstetra que está envolvido em várias queixas de malformações graves em bebés. A OM tem pendentes sete queixas contra ele, o que leva o bastonário Miguel Guimarães a reconhecer o atraso “inadmissível” na apreciação dos casos.

“No sistema público o problema não se coloca”

O bastonário avançou nesta semana que a OM vai criar um Colégio de Competência em ecografia obstétrica.

“No último ano, não se emitiu nenhuma certificação [a médicos para fazerem ecografias] por se estar a trabalhar na criação do colégio da competência”, explica ao Expresso o presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia, João Bernardes.

“Nos hospitais públicos não é possível fazer os protocolos I e II das grávidas (os exames) sem ser por profissionais qualificados e cumprindo todas as regras, como os tempos, por exemplo 40 minutos de ecografia no primeiro trimestre”, frisa ainda João Bernardes, concluindo que “no sistema público o problema não se coloca”.

No sector privado, não se pode dizer o mesmo. A grande maioria dos profissionais que trabalha nos privados não terá competências para fazer ecografias, o que coloca muitas grávidas em risco.

O bastonário da OM acusa a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) e a Administração Regional de Saúde de Lisboa (ARS) por falta de fiscalização.

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