N. Molter/I. de Pater/C. Alvarez, Observatório W. M. Keck

Apesar de deslumbrarem a maioria das pessoas, para vários astrónomos o amanhecer e o crepúsculo são considerados “um desperdício de bom tempo de observação”. Mas não para Ned Molter, estudante de astronomia da UC Berkeley.

O cientista norte-americano quis mostrar que alguns objetos brilhantes também podem ser estudados durante o lusco-fusco, enquanto que outros astrónomos olham para o relógio e esperam que o tempo passe, e rapidamente descobriu uma nova característica em Neptuno: um sistema de tempestades quase do tamanho da Terra.

“Ver uma tempestade tão brilhante, a uma latitude tão baixa, é extremamente surpreendente,” comenta Molter, que avistou o sistema perto do equador de Neptuno durante um teste ao lusco-fusco utilizando o Observatório W. M. Keck em Mauna Kea, Hawaii.

“Normalmente, esta área é verdadeiramente calma e só vemos nuvens brilhantes a bandas de latitude média, por isso encontrar uma nuvem tão enorme situada no equador é espetacular”, destaca.

Este enorme sistema de tempestades, encontrado numa região onde nenhuma nuvem brilhante tinha sido avistada antes, mede cerca de 9000 quilómetros em comprimento, ou um-terço do raio de Neptuno, abrangendo pelo menos 30 graus tanto em latitude como em longitude. Molter observou o aumento de brilho entre 26 de junho e 2 de julho.

“Historicamente, já têm sido avistadas nuvens muito brilhantes, ocasionalmente, em Neptuno, mas normalmente em latitudes mais próximas dos polos, cerca de 15 a 60 graus norte ou sul. Nunca antes uma nuvem tinha sido observada tão perto do equador, nem assim tão brilhante,” realça Imke de Pater, professora de astronomia da UC Berkeley e conselheira de Molter.

Vórtices escuros, de alta pressão, ancorados nas profundezas da atmosfera de Neptuno, podem ser os responsáveis pela gigantesca cobertura de nuvens. À medida que os gases sobem no vórtice, arrefecem.

Quando a sua temperatura cai abaixo da temperatura de condensação de um gás condensável, esse gás condensa e forma nuvens, como a água na Terra. Em Neptuno, espera-se a formação de nuvens de metano.

Tal como todos os planetas, os ventos na atmosfera de Neptuno variam drasticamente com a latitude, de modo que se houver um grande sistema de nuvens brilhantes a abranger muitas latitudes, algo deverá estar a mantê-lo unido, como um vórtice escuro. Caso contrário, as nuvens separar-se-iam.

“Este grande vórtice está localizado numa região onde o ar, em geral, está a descer em vez de subir. Além disso, um vórtice de longa duração, situado no equador, será difícil de explicar fisicamente”, comenta de Pater.

Se não estiver ligado a um vórtice, o sistema poderá ser uma grande nuvem convectiva, semelhante àquelas vistas ocasionalmente noutros planetas como a grande tempestade em Saturno, detetada em 2010. Embora também seria de esperar que a tempestade ficasse consideravelmente “manchada” após uma semana.

“Isto mostra que existem mudanças extremamente drásticas na dinâmica atmosférica de Neptuno, e talvez este seja um evento climático sazonal que ocorre a cada poucas décadas,” realça de Pater.

Neptuno orbita o Sol a cada 160 anos e uma estação tem a duração aproximada de 40 anos. É o mais planeta mais “ventoso” do Sistema Solar, sendo que os ventos mais velozes observados, no equador, atingiram uns violentos 1400 km/h.

A descoberta do misterioso complexo de nuvens equatoriais em Neptuno foi possível graças a um novo programa do Keck, que permite que estudantes universitários e investigadores trabalhem com o telescópio, enquanto contribuem para o Observatório e para a sua comunidade científica.

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