Cugnot Mathieu / EPA

O presidente francês, Emmanuel Macron.

O ataque terrorista dentro de uma Igreja em Nice, com a morte de 3 pessoas, veio reforçar a ameaça do terrorismo islâmico em França. Já havia sinais e alertas oficiais de perigo numa altura em que os receios são mais intensos do que nunca.

“É a França que está a ser atacada”. Foi desta forma que o presidente francês, Emmanuel Macron, se dirigiu aos cidadãos em Nice, no local onde três pessoas foram assassinadas por um jovem de apenas 21 anos.

O ataque ocorreu dentro da Igreja de Notre-Dame, vitimando uma mulher de cerca de 70 anos, encontrada “quase decapitada”, segundo a imprensa francesa, o sacristão, pai de dois filhos, e uma outra mulher na casa dos 30 anos.

Noutros pontos do país, nomeadamente em Avignon e em Lyon, foram neutralizados vários atentados. E na Arábia Saudita, um segurança de um espaço consular francês foi alvo de um ataque.

Mas esta vaga de terrorismo não surpreende os Serviços de Segurança franceses que há muito estavam em alerta.

O ministro do Interior de França, Gérald Darmanin, já tinha avisado diversos responsáveis de forças de segurança para “o aumento do risco de terrorismo” e pedia que reforçassem a protecção, propondo ainda o “aumento das medidas de vigilância”, como cita o Le Figaro.

Nessa nota enviada a vários responsáveis de segurança, Darmanin citava um suposto comunicado da agência Thabat, tida como próxima da Al-Qaeda, que “apela de forma explícita a cometer acções visando o nosso país no quadro de uma jihad individual“, destaca o mesmo jornal.

Ora, ao invés de operações planeadas por grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o Daesh, esta nova vaga de atentados tem como elo em comum o facto de ser levada a cabo por “lobos solitários”, atacando com armas tão banais como uma faca, em nome de Alá.

E este é um pesadelo ainda maior do que os grupos terroristas, pois é praticamente impossível controlar estas pessoas.

Muitas delas não têm um histórico de radicalização, nem estão referenciadas pelas autoridades. Alguns são muito jovens e deixam-se convencer pela propaganda dos grupos terroristas islâmicos que é disseminada na Internet, embora não façam parte deles activamente.

“Há uma concentração de radicais que querem lutar”

“A ameaça? É mais do que escarlate; nunca vi nada assim“, desabafa ao Le Figaro um especialista próximo de Darmanin que será um alto elemento da área da segurança habituado a lidar com o tema do terrorismo.

“Há entre Avignon e a Côte d’Azur uma concentração de islamistas radicais que querem lutar”, avisa ainda este responsável, lamentando que os polícias e militares da Operação Sentinela que dirige não têm mãos para lidar o “tanto” que há a fazer.

As autoridades terão mais de 8 mil pessoas sinalizadas no âmbito da prevenção da radicalização com vista a fins terroristas, como atesta o Le Figaro. Mas haverá outros milhares que não passam sequer no crivo das autoridades.

Além disso, é preciso pensar na ameaça dos mais de 500 detidos por terrorismo islâmico e que vão acabar por ser libertados, como repara o mesmo jornal.

Por outro lado, há mais 700 detidos por delitos comuns que podem ser radicalizados, estima a dita publicação.

A esta já complicada realidade, junta-se ainda a necessidade de fazer vigilância a interesses arménios em França no âmbito do conflito na região de Nagorno Karabaj que opõe a Arménia ao Azerbeijão, país apoiado pela Turquia.

Atacante de Nice chegou à Europa por Lampedusa

Numa altura em que o Daesh está combalido, depois de ter perdido a guerra na Síria, e com a Al-Qaeda menos activa, os grupos terroristas islâmicos estarão apostados em incentivar o aparecimento destes “lobos solitários”.

A Al-Qaeda não reivindicou o atentado de Nice, mas publicou na Internet uma foto de Macron com uma bala à frente e com um apelo a ataques contra o presidente francês e contra “todos os seus ministros” e “os interesses franceses, tanto em França como no estrangeiro”.

A imigração ilegal será uma forma destes grupos fazerem chegar à Europa os seus operacionais.

O jovem de 21 anos que levou a cabo o ataque em Nice é de origem tunisina e chegou à Europa através da ilha italiana de Lampedusa no final de Setembro, de acordo com os media franceses.

As autoridades colocaram-no em quarentena por causa da covid-19, mas depois terá recebido uma notificação para deixar o território italiano, ficando ao deus dará. Terá chegado a França no início de Outubro.

Já no passado dia 25 de Setembro, tinha sido um jovem paquistanês de 18 anos a atacar várias pessoas junto à antiga sede do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris.

A 16 de Outubro, foi um jovem checheno quem decapitou o professor Samuel Paty depois de este ter mostrado numa aula as caricaturas de Maomé que originaram o atentado terrorista de 2015 ao Charlie Hebdo.

“É a França que é atacada”

Os Serviços de Inteligência franceses consideram que a ameaça terrorista sobre França aumentou consideravelmente depois do início do julgamento dos autores do atentado de 2015 contra o Charlie Hebdo que matou 12 pessoas e feriu 11.

Contudo, alguns franceses acreditam que os ataques não têm nada a ver com as caricaturas e que visam a herança cristã do país.

“Muito claramente, é a França que é atacada” pelos seus “valores” e pelo seu “gosto pela liberdade” e por se poder “acreditar livremente” em termos de fé, considera, por seu turno, Macron que deu “o apoio da nação aos católicos”.

“Não vamos ceder”, prometeu também reafirmando a “determinação absoluta” em lutar contra o terrorismo e anunciando o aumento do dispositivo policial para vigilância de 3 mil para 7 mil elementos.

Uma medida para “proteger todos os locais de culto, em particular as Igrejas”, para que o Dia de Todos os Santos se possa “desenvolver nas condições devidas”, mas também para “proteger as escolas” para o regresso das aulas, após uma pausa habitual nesta época.

O primeiro-ministro Jean Castex também garantiu que “a resposta do Governo será firme, implacável e imediata“, e colocou o país em “Urgência Atentado”, o estado máximo de alerta.

Turquia fala em ataque “selvagem”

Vários chefes de Estado já vieram condenar os ataques, inclusive a Turquia numa altura de grande tensão entre o presidente Erdogan e Macron.

O ministro turco dos Negócios Estrangeiros veio anunciar que a Turquia condena “firmemente” o que definiu como um ataque “selvagem”, manifestando a sua “solidariedade para com o povo francês”.

“É claro que os que cometeram um tal ataque selvagem num local de culto sagrado não podem inspirar-se em qualquer valor religioso, humano ou moral“, sublinha ainda o ministro turco.

Uma posição que surge depois de uma troca de palavras acesa entre Macron e Erdogan no seguimento de declarações do presidente francês que despoletaram a fúria do mundo muçulmano. Macron defendeu o direito à liberdade dos franceses na homenagem ao professor decapitado.

Após a troca de farpas, o Charlie Hebdo publicou uma caricatura de Erdogan, onde este aparece a levantar a roupa de uma mulher, exibindo-lhe as nádegas, e a exclamar “o profeta Ouauuhhh!”.

Mas a tensão entre a Turquia e a França já vinha de antes.

O Governo gaulês está a preparar um projecto de lei que pretende obrigar os imãs e demais elementos religiosos a serem formados em França.

Cerca de 50% dos imãs que trabalham no país foram formados e são pagos por nações muçulmanas, como a Turquia. Trata-se de uma forma de estas nações influenciarem a comunidade muçulmana francesa que tem ganho um poder crescente no país.

Após o assassinato de Samuel Paty, a França encerrou várias mesquitas e associações islâmicas suspeitas de ensinarem posições radicais.

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