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A lendária aviadora Amelia Earhart junto ao seu Lockheed Electra, 6 de junho 1937

Foi há mais de 80 anos que a pioneira da aviação desapareceu sobre o Oceano Pacífico, enquanto tentavam circum-navegar o globo num Lockheed Electra.

As teorias sobre o desaparecimento de Amelia Earhart e Fred Noonan, que também estava presente no avião, recaem, principalmente, sobre duas situações: o avião despenhou-se sobre o Oceano e os dois morreram afogados, e o avião despenhou-se em Nikumaroro, uma ilha remota, onde morreram à fome.

Agora, um antropologista forense americano tem novas provas que aumentam a probabilidade de os dois terem sofrido o segundo destino, avança o The Economist.

Nikumaroro, uma das Ilhas Phoenix, é um local inóspito e era inabitável, na altura do desaparecimento de Amelia, em 1937. Três anos depois, uma equipa de investigação encontrou uma caveira humana e um esqueleto parcial.

Perto estava também um sapato, que os investigadores acreditam pertencer a uma mulher, e uma caixa fabricada em 1918, desenhada para guardar um sextante, um instrumento elaborado para medir a distância angular na vertical entre um astro e a linha do horizonte para fins de cálculo da posição e corrigir eventuais erros de navegação.

Os ossos foram recolhidos e entregues numa escola médica em Fiji, onde David Hoodless, um médico e professor de anatomia, os mediu e concluiu que pertenceram a um homem de meia idade.

Mais tarde, os ossos desapareceram pelo que o mistério baseia-se nas medições de Hoodless e na antropologia forense de 1941.

Sem os ossos, é difícil avaliar a fiabilidade das medidas. Mas o antigo diretor do Centro de Antropologia Forense da Universidade do Tennessee, Richard Jantz, evidenciou num artigo como essa disciplina era ainda primitiva na altura.

Hoodless usou fórmulas desenvolvidas por um estatístico do século XIX, Karl Pearson, para calcular a estatura a partir do comprimento do osso e concluiu que o náufrago tinha cerca de 1,66 metros de altura.

As fórmulas de Pearson são, porém, amplamente reconhecidas por subestimar a altura. Hoodless também usou três indicadores de sexo: a proporção da circunferência do fémur para o comprimento, o ângulo entre o fémur e a pélvis, e o ângulo subpúbico, entre dois ossos da pélvis, que é maior nas mulheres do que nos homens.

Desses três indicadores, apenas o ângulo subpúbico ainda é considerado válido, e nas suas notas, Hoodless não divulgou o peso relativo que deu a cada um. Ainda hoje, diz o Dr. Jantz, não é possível “acertar” sempre. Hoodless observou que os ossos eram “batidos pelo tempo”, o dano que o Dr. Jantz pensa ser mais provável de ter sido causado por caranguejos destruidores e que também pode descartar as medidas de Hoodless.

Se Hoodless estivesse certo, os restos não poderiam pertencer a Earhart, cuja licença de condução registava uma altura de 1,70 metros.

O Dr. Jantz também descreve algumas novas pesquisas sobre o assunto. Os americanos dessa era diferiram morfologicamente dos homólogos modernos. Por isso, o cientista comparou as medidas de Hoodless com as dos esqueletos de 2.700 americanos brancos que morreram entre os séculos XIX e XX. Jantz incluiu as medidas dos ossos de Earhart calculados a partir de fotografias e conclui que os ossos mais pareciam os do náufrago do que 99% da amostra de referência.

A descoberta pode ser suficiente para convencer aqueles que até agora apoiaram a conclusão de Hoodless. Mas é improvável que silencie os teóricos da conspiração que continuam a pensar no desaparecimento de Earhart.

A verdade pode nunca ser totalmente descoberta. Mas mesmo que aqueles que afirmam que se afogou consigam explicar a semelhança que o Dr. Jantz descobriu, outro mistério aguarda agora uma resposta: Se o náufrago não era Earhart, então quem era?

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