David Hyatt / flickr

Si Uey Sae-Ung, o canibal assassino de crianças que virou múmia depois de executado e que está em exposição num museu da Tailândia.

“Não saias de noite ou aparecerá o Si Uey para te comer o fígado.” Esta é uma frase que os pais tailandeses ainda hoje usam para manterem os filhos na ordem, numa alusão a um canibal e assassino de crianças que foi executado há 60 anos. Mas há uma campanha que luta para devolver ao seu cadáver, transformado em múmia e exposto num museu, a dignidade e o “eterno descanso”.

Si Uey Sae-Ung era um solitário emigrante chinês que trabalhava como jardineiro ao domicílio. Mas passou para a história da Tailândia como um “monstro” que sequestrou e assassinou seis meninos, comendo-lhes os órgãos.

O homem foi detido depois de ter sido visto pela mãe de uma das crianças assassinadas perto de uma fogueira de onde sobressaía a perna do seu filho, pelo qual esperava em casa há várias horas.

Si Uey admitiu, na altura, ter matado a criança, confessando também o assassinato dos outros cinco menores e justificando que o fez para lhes comer as vísceras. O mistério resolveu-se, assim, muito rapidamente, para alívio das autoridades.

O homem foi condenado ao fuzilamento e executado a 17 de Setembro de 1959, um ano e meio depois da sua detenção.

Após a sua morte, o hospital Siriraj em Banguecoque, a capital tailandesa, ficou com o cadáver – o propósito era estudar o cérebro de Si Uey para analisar se tinha alguma anormalidade que justificasse o seu comportamento hediondo.

O cadáver acabou por ser alvo de um processo de embalsamento e foi exposto numa vitrina do museu forense do hospital, a par de uma colecção que inclui fetos e outros cadáveres humanos.

O corpo retorcido e escurecido de Si Uey permanece em exposição até hoje, sendo possível ainda perceber as cavidades das balas no peito. A múmia do “homem que come pessoas”, letreiro que por muitos anos o identificou, é a principal atracção do museu.

Mas está a decorrer uma campanha que pretende dar ao cadáver, finalmente, o seu “descanso eterno”, libertando-o da exposição a que é sujeito.

“Não importa o que fez. Exibir o seu corpo desta maneira é uma violação dos seus direitos humanos”, considera o impulsionador da campanha, Pharaoh Chakkraphattranan, em declarações à agência EFE.

Pharaoh quer que o cadáver deixe de estar exposto no museu e pretende dar-lhe um enterro digno.

“Fui ver o Si Uey no museu e não o vi como um canibal, mas como uma vítima nos seus direitos e na sua dignidade. Ainda que tenha sido o assassino, creio que a pena de morte já é suficiente castigo“, afirma Pharaoh.

Na campanha que lançou no site Change.org, Pharaoh recolheu várias dezenas de assinaturas, o que levou o hospital a eliminar o nome e a descrição como canibal da placa, passando a ser identificado apenas como “preso do corredor da morte”.

O hospital continua, contudo, a descartar remover o corpo do museu. “Há mais vantagens do que desvantagens em mantê-lo na exposição”, frisa o vice-decano da Faculdade de Medicina do Hospital Siriraj, Narit Kitnarong, também em declarações à EFE.

Tê-lo ali permite que os visitantes aprendam. É um exemplo para ensinar às crianças a terem cuidado, a não saírem de noite de casa e a aprenderem a forma correcta de comportarem-se”, acrescenta.

Os vizinhos da comunidade onde Si Uey vivia apelaram também à Comissão Nacional para os Direitos Humanos da Tailândia para interceder pela sua “libertação”.

Perante estas movimentações, o hospital já está a considerar a cremação do corpo, admitindo que pode criar “uma réplica” apenas “por pedagogia, sem provocar mais polémica”, como frisa o decano de Medicina do Siriraj, Prasit Watanapa, na EFE.

A história de Si Uey já originou filmes, uma série de televisão, documentários e várias reportagens. Algumas das linhas destas investigações têm levantado suspeitas de que ele pode não ter sido o autor das mortes por que foi condenado.

Têm-se apontado incongruências no processo judicial e irregularidades na investigação policial, nomeadamente pelo facto de alguns pais das vítimas terem chegado a identificar o parente de um chefe local como suspeito dos assassinatos.

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