Marcelo Camargo / ABr

Embora a monarquia tenha sido foi derrubada no Brasil em 1889, após 400 anos de governo, a ascensão do conservadorismo introduzida pelo Presidente Jair Bolsonaro encoraja aqueles que sentem que o sistema republicano destruiu o país a pedir a restauração do domínio monárquico.

Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança e Wittelsbach tem um nome real, mas não uma coroa. Dom Bertrand é o bisneto de Pedro II, último imperador do Brasil, cujo avô, o rei João VI, fugiu para o Brasil com a corte portuguesa em 1807, para escapar de Napoleão.

“Um retorno ao governo monárquico é a única maneira de governar o Brasil”, disse ao OZY Dom Bertrand ou, como pode preferir ser conhecido, o Príncipe Imperial do Brasil, herdeiro do trono extinto. “Na república há, frequentemente, esquizofrenia”, considerou.

Dom Bertrand, com 78 anos, é visto por muitos brasileiros como o rei em espera do país. O irmão mais velho – com quem divide uma casa arrendada em São Paulo, repleta de retratos de monarcas da família, lembranças reais e relíquias católicas – tem 81 anos.

Nos últimos meses, o advogado tem estado socialmente mais ativo. Abriu uma conta no Twitter, onde conquistou 20 mil seguidores em duas semanas. Um dos primeiros foi Eduardo Bolsonaro, congressista e filho mais novo do Presidente.

“O movimento monárquico cresceu enormemente: há um círculo monárquico em todos os estados brasileiros”, indicou Dom Bertrand, sem fornecer números.

No Facebook existem atualmente várias páginas dedicadas à restauração da monarquia: a Pró Monarquia possui 97 mil seguidores; a Monarquia Brasil 69 mil e o Movimento pela Restauração da Monarquia no Brasil tem 54 mil. “É espontâneo. É porque o povo brasileiro é conservador”, explicou Dom Bertrand.

Twitter

Dom Bertrand

Em 2019, durante um almoço para fãs da monarquia realizado num clube privado de São Paulo, o irmão mais novo de Dom Bertrand, Dom Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança, disse: “Votei em Bolsonaro e ainda vou votar nele, os seus valores estão ao lado dos nossos”.

Sobre a mesa encontrava-se uma bandeira imperial do Brasil, em papel – também verde e amarela, mas com o casaco de armas do Império do Brasil no centro, substituindo o lema “Ordem e Progresso”, desprezado pelos monárquicos. No lado de fora do edifício estava pendurada outra, mas de tecido.

“Nós, os monárquicos, temos que apoiar o atual governo”, frisou Dom Bertrand, acrescentando que estão alinhados com a postura pró-arma e anti-aborto de Bolsonaro, garantindo que, tal como o Presidente, são céticos em relação às mudanças climáticas.

E indicou: “Conheço alguns ministros que são amigáveis ​​à monarquia, mas não podem se declarar monárquicos”.

O livro Environmentalosis Psychosis, da sua autoria, foi citado por Bolsonaro em conferências internacionais como forma de desafiar as preocupações com a desflorestação da Amazónia. No obra, Dom Bertrand classifica as mudanças climáticas como a “verdadeira conspiração contra a civilização ocidental e cristã”, criticando a ativista Greta Thunberg.

Para Dom Bertrand, os dois processos de ‘impeachment’, uma série de escândalos de corrupção e uma recessão brutal provam que o sistema republicano prejudicou o Brasil. Mas, por outro lado, também deu origem a Bolsonaro e a um espírito monárquico revigorado, que é disseminado através das redes sociais.

“Os monárquicos levantam-se após momentos de graves crises, tentando tirar proveito das fraquezas institucionais do Brasil”, esclareceu ao OZY um historiador brasileiro, que preferiu manter o anonimato.

O sobrinho de Dom Bertrand, Luiz Philippe de Orléans e Bragança, licenciado pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos (EUA), colaborou para a eleição de Bolsonaro, no ano passado.

Depois que Fernando Collor de Mello foi impugnado como Presidente, em 1992, o Brasil realizou um referendo para decidir a forma de governo e 10,3% dos que votaram (quase 6,8 milhões de pessoas) disseram que queriam um regime monárquico.

Uma pesquisa de 2017 mostrava que o apoio à monarquia permaneceu estável ao longo dos anos. O relatório revelava que 10,7% dos entrevistados eram favoráveis ​​ao retorno da família real, enquanto 84,5% eram contra.

A monárquica Carla Zambelli, uma das congressistas mais próximas de Bolsonaro, escreveu no Twitter: “A longo prazo, devemos mudar para um sistema parlamentar e estabelecer que o chefe de Estado seja um monarca. O sistema monárquico é bom por uma razão: o monarca não está preocupado com a próxima eleição. Ele sempre se preocupará mais com a próxima geração, algo que a maioria dos políticos hoje não se importa”.

No entanto, para Paula Vedoveli, historiadora da Fundação Getúlio Vargas, o governo real continuará a ser algo do passado. “Pode ser atraente para alguns, mas não há nenhuma condição para voltarmos a uma monarquia”, sublinhou.

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