A ministra da Saúde tornou-se num dos assuntos mais falados do Twitter, nesta sexta-feira, depois de ter chorado durante uma cerimónia pública, enquanto fazia o balanço do trabalho feito nos últimos meses contra a pandemia de covid-19. Um momento que vale muitos elogios a Marta Temido, mas também algumas críticas.
Foi na cerimónia de aniversário do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge que a ministra desabou, não conseguindo controlar as lágrimas, numa altura em que falava do trabalho feito pelo Serviço Nacional de Saúde para fazer face à pandemia e enquanto sublinhava que a covid-19 “obrigou a sacrifícios sem precedentes” no “desafio das nossas vidas”.
As lágrimas públicas de Marta Temido surgem depois de mais uma semana difícil, em que foi visada por críticas da Ordem dos Médicos, com o bastonário a acusá-la de falta de transparência e de bom senso.
Por outro lado, a ministra também foi desautorizada pela Entidade Reguladora da Saúde no âmbito de uma decisão que tomou sobre a transferência de utentes entre prestadores de cuidados de saúde.
Estes episódios são apenas os mais recentes numa sucessão de casos e de críticas que se abateram sobre os ombros de Marta Temido desde que a pandemia começou. Pelo meio, muitos têm acusado a ministra de não ter perfil político para o cargo, questionando a falta de tacto de algumas das suas declarações.
Em Junho passado, chegou a ser alvo da ira de António Costa durante uma quente reunião do Infarmed. Nessa altura, tratou de desvalorizar a polémica, mas começou a correr a ideia de que ela estaria “a prazo” no Governo.
No Verão, quando os casos de covid-19 dispararam em Lisboa, a nomeação do gabinete de supressão para a pandemia na capital foi vista como uma espécie de “cartão amarelo” à ministra da Saúde.
Mas é improvável que Costa a substitua a meio da pandemia. Até porque com a saída de Mário Centeno do Governo, Marta Temido passou a ser a ministra mais popular, segundo uma sondagem realizada em Julho passado.
O poder de Temido no Governo, apesar de ser uma figura de fora do aparelho socialista, ficou vincado aquando da saída de Jamila Madeira do cargo de secretária de Estado Adjunta e da Saúde. Uma saída que terá acontecido a pedido da ministra devido a um “choque de personalidades”.
A situação granjeou a Temido “mais alguns anticorpos” entre um certo núcleo de socialistas que nunca simpatizou com ela.
Mas as lágrimas que agora verteu podem fortalecer ainda mais o poder de Temido, fruto da empatia que provocam nos portugueses. Até porque, por esta altura, já todos andamos esgotados com o arrastar da pandemia e há um sentimento de proximidade com a dor manifestada pela ministra.
Nas redes sociais é possível confirmar esta tendência, com muitos utilizadores a assumirem que se deixaram emocionar.
“A humanidade da Marta Temido neste momento é verdadeiramente desarmante“, escreve um utilizador do Twitter.
“Vi agora a ministra da saúde emocionada, muito emocionada, ao falar desta luta contra a Covid… emocionei-me com ela“, assume também Manuel Barbosa do partido Livre, noutra publicação no Twitter, realçando que não consegue “pensar mal desta senhora”, nem “deixar de agradecer ao destino, num momento tão difícil, ter colocado esta mulher a liderar o Ministério da Saúde”.
Já Diogo Viegas da Federação da Juventude Socialista do Algarve manifesta a sua “total solidariedade” com Marta Temido, considerando que “está sob pressão quase desde do início deste ano e deu sempre a cara, nunca baixou os braços, nunca abandonou o barco”.
Também a jurista da Comissão Europeia Inês Melo Sampaio realça o facto de Temido ter continuado no cargo, apesar das dificuldades, notando que “à ministra da Saúde portuguesa tremeu-lhe brevemente a voz numa conferência de imprensa em Dezembro”, enquanto que “o ministro da Saúde holandês demitiu-se logo em Março por não aguentar a pressão“.
A vereadora do PSD na Câmara Municipal de Lisboa, Sofia Vala Rocha, também faz a defesa de Marta Temido, considerando que a sua reacção “é natural” e notando que “seria preciso ser um psicopata para não acusar o peso da pressão da pandemia que dura há quase um ano e já ceifou a vida a milhares de portugueses”.
Sofia Vala Rocha também aponta, noutra publicação no Twitter, que “muito mal disfarçada a crítica por ela ser mulher, do género, “é mulher e chora””. “Pois choramos e geramos filhos, e cuidamos deles e cuidamos de velhos e acamados e cuidamos de tudo em geral. E temos intuição e sexto sentido e às vezes choramos”, acrescenta.
E do lado das críticas à ministra, também há quem lhe abra a porta da saída do Governo.
“Não questiono a autenticidade das lágrimas da ministra, mas Marta Temido é uma incompetente de todo o tamanho“, aponta outro utilizador do Twitter.
Também há quem vinque que “a emoção de Marta Temido não diz nada da sua capacidade como ministra” e “não altera absolutamente nada relativamente à incapacidade que demonstrou e demonstra como governante”.
Entre as críticas, há quem diga que “(des)tratou os enfermeiros” e os perseguiu, e ainda quem lhe aponte o dedo por faltarem vacinas da gripe. De resto, Temido já admitiu que vai haver “alguma escassez de vacinas” contra a covid-19 na primeira fase do plano de vacinação.
Também há quem partilhe os dados desta sexta-feira sobre a situação da pandemia em Portugal, com um novo recorde diário de mortes, agradecendo a Marta Temido por estes números trágicos.
“Dispenso vídeos da Marta Temido a chorar. Tenho uma profissional de saúde em casa que tinha ataques de pânico sempre que vinha dos turnos em Abril. Não lhe foi aumentado o ordenado, não tinha material para trabalhar em segurança. Mandar é fácil, difícil é fazer”, considera outra utilizadora do Twitter.
[sc name=”assina” by=”SV, ZAP”]
Não é para ser humilhada que uma pessoa se dispõe a desempenhar um cargo público! Quantos ministros não tiveram um desempenho pior do que mau com episódios de corrupção, de incompetência, de deslealdade e não foram perseguidos pelas suas incompetências? Tendo passado passado até incólumes pelos intervalos da chuva! O que para aí vai deste tipo de gente! Não sei a quem interessa desapear a ministra mas são com certeza é a interesses bem instalados e com os quais ela não partilha porque não actua sob pressões, age de moto próprio, e isto não pode acontecer. A partir do momento em que se entra no jogo político tem que se engolir muitos sapos vivos e ela tem oferecido alguma resistência a isso defendendo o SNS. E tenho a certeza que muitas das pessoas que a atacam nas redes sociais estão contra o reforço do SNS que a ministra apanhou desguarnecido e disso ela não pode ser acusada. Neste momento dificil da sua carreira ela precisa de todo o nosso apoio e não de críticas injustas que apenas servem para a desestabilizar ou para a obrigar a demitir-se.