Manuel de Almeida / Lusa
Manifestação antirracista e antifascista – “Black Lives Matter” em Lisboa.
Milhares de portugueses manifestaram-se, este sábado, contra o racismo em Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e Viseu. Em causa está a morte de George Floyd, nos Estados Unidos.
Mais de cinco mil pessoas participaram hoje à tarde numa manifestação em Lisboa contra o racismo denominada “Vidas Negras Importam”, a evocar os protestos que ocorreram nos Estados Unidos e porque em Portugal “também há intolerância”.
De forma pacífica, ao longo de mais de duas horas e meia, os manifestantes percorreram os cinco quilómetros que separam a zona da Alameda, junto à Fonte Luminosa, até à Praça do Comércio, na Baixa.
Com bombos a marcar o ritmo, o ‘grito’ de protesto mais ouvido foi “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam), mas os cartazes que muitos seguravam tinham centenas de outras mensagens como “não quero ter medo da PSP”, “a quem ligamos quando a polícia mata”, “stop killing us” (parem de nos matar), “isto não é um filme americano” ou “a roupa para lavar é a única coisa que se deve separar por cores”.
“Estamos saturados”, disse à Lusa Catarina Gomes, de 34 anos, ainda antes do início da manifestação, explicando que os negros “continuam a sentir racismo em várias situações do dia a dia”, mesmo em Portugal.
“Cada vez há mais intolerância, as pessoas estão frustradas, muitas vezes por razões económicas, e começam a ser intolerantes”, acrescentou.
Ao longo da Avenida Almirante Reis, que liga o Areeiro ao Martim Moniz, das varandas muitas pessoas também acenavam e batiam palmas à passagem da manifestação.
À frente, vários agentes da PSP ‘abriam’ caminho aos manifestantes e, apesar de um dos motes da concentração ser a violência policial, em momento algum houve gestos menos próprios contra a polícia ou palavras de desagrado.
Um dos agentes que acompanhava a manifestação disse à Lusa que, no total, terão estado presentes entre cinco a seis mil pessoas.
Para Valentina, de 17 anos, esta foi a sua ‘estreia’ em manifestações contra o racismo e hoje decidiu sair à rua porque há pessoas que não nasceram “privilegiadas” como ela.
“Em Portugal claramente há racismo”, salientou, defendendo que para si “todos merecem os mesmos direitos”. “Merecem estudar igual a nós, são julgados pela cor e não devia ser assim”, notou.
À passagem pela sede do BE, quase a chegar ao Martim Moniz, os manifestantes saudaram a coordenadora bloquista, Catarina Martins, com palmas e gritos de “o povo unido jamais será vencido”. Da varanda do edifício, Catarina Martins acenou e bateu palmas.
Entre outros dirigentes do BE, a deputada Beatriz Gomes Dias esteve também na manifestação porque a luta contra o racismo não é uma questão partidária, “mas uma questão de cidadania, de direitos das pessoas”.
Encostado a um sinal de trânsito, já na Praça do Comércio, Carlos, de 38 anos, esperava pela chegada dos manifestantes, com um pé em cima de um ‘skate’ já com bastantes marcas de uso.
À Lusa explicou que decidiu participar “em solidariedade e apoio com todas as vítimas de preconceito e racismo”, situações que, por vezes, também acontecem em Portugal.
“Mas, alguma coisa está a mudar”, considerou, apontando para o número de pessoas que decidiram hoje ‘gritar’ contra o racismo” e que “ninguém imaginava que pudesse ser tão grande”.
Contudo, em tempos de pandemia de covid-19 também a saúde importa e, por isso, Carlos manteve-se sempre um bocadinho “à margem” do aglomerado de manifestantes. Pois, embora quase todos estivessem de máscara, o distanciamento social imposto pela prevenção da covid-19 esteve bastante longe de ser cumprido.
Mais de mil pessoas no Porto
Jani, 26 anos, natural da Guiné, foi uma das “mais de mil” pessoas, segundo a organização, que este sábado se uniram, no Porto, em manifestações contra a precariedade laboral e contra o racismo.
Em declarações à Lusa, a guineense, a residir em Portugal desde criança, reconheceu que nunca foi vítima de racismo, mas disse não poder ficar “indiferente” ao que se passa
. “O que aconteceu a George Floyd, nos EUA, é uma coisa que pode acontecer comigo a todo o momento, porque há uma coisa que temos em comum, que é a cor da pele”, disse.“O que matou George Floyd naquele dia não foi o facto de ele ter tentado passar uma nota falsa, o que o matou foi a cor dele. No dia 25 de Maio, em que comemoramos o dia da África, nesse dia África sofreu. 2020 tem sido um ano muito pesado não só pela pandemia, mas por situações claras de racismo, temos estado a sofrer e só queremos os nossos direitos e nada mais”, acrescentou a jovem guineense.
Para a Praça da Cordoaria, frente à antiga Cadeia da Relação do Porto, foi marcada, para as 17h00, a marcha “Resgatar o Futuro, não o lucro”, para depois seguirem até à Avenida dos Aliados, juntando-se à manifestação contra o racismo e contra o fascismo, organizada por um conjunto de associações.
Joana Cabral, dirigente do SOS Racismo disse à Lusa que as manifestações de hoje, que acontecem também noutras cidades portuguesas, são para protestar contra o que se passou no EUA, mas também “contra o que se passa no Brasil, em Portugal, em Viseu, em Lisboa, na Amadora e no Porto”.
“Não podemos esquecer esta história longa que não fez como última vítima George Floyd, vai continuar a fazer muitas outras. Temos de sair da nossa zona de conforto”, disse, referindo que as duas manifestações do Porto se uniram porque “reúnem gente que vem lutar por causas que são aparentemente mais particulares, mas que, no fundo, facilmente percebemos que fazem parte da mesma luta”.
E acrescentou: “É contra o racismo, contra o capitalismo e contra a precarização do trabalho. É preciso lembrar que uma parte significativa das pessoas precárias e que asseguraram uma parte significativa do trabalho que manteve a sociedade a funcionar durante a quarentena são, em muitos casos, pessoas com pertença a grupos étnico raciais vulneráveis e, muitas vezes, pobres”.
Da organização da marcha “Resgatar o futuro”, Raquel Azevedo, dirigente dos Precários Inflexíveis, explicou à Lusa que se pretende, sobretudo, “lutar por novas escolhas, direitos mais iguais, exigir um emprego com direitos e assegurar que os mais afectados por esta crise pandémica têm a protecção social que lhes é devida”.
“Não queremos novamente ver nas nossas vidas uma segunda crise e, por isso, queremos fazer parte de uma solução que permita o combater o desemprego, a exploração e à precariedade”, acrescentou.
Cerca das 17h30, meia hora após o inicio da concentração já eram cerca de 350 manifestantes junto à Cordoaria mas muitos, a grande maioria jovens, ainda estavam a chegar. No Porto, a manifestação deveria terminar cerca das 19h30, na Avenida dos Aliados, onde, cerca das 19h00, se concentravam “mais de mil pessoas”, segundo Raquel Azevedo.
Os protestos em Portugal visam também repudiar a designação pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dos movimentos antifascistas como grupos terroristas.
[sc name=”assina” by=”ZAP” source=”Lusa” ]
Onde esteve o respeito pelas regras de saúde publica???
Não são 10 no limite... e o que faz a policia? nada...
Enfim... só nos funerais é que não pode haver concentrações... e nas actividades do PCP...