José Sena Goulão / Lusa
O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa
Naquele que já foi considerado o discurso mais duro do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa ameaçou “usar todos os poderes” contra a “fragilidade do Estado”. Em Oliveira do Hospital, local que escolheu para discursar, Marcelo deixou a porta aberta à demissão da ministra e exige a Costa que “retire todas as consequências”.
“O Presidente da República é, antes de mais, uma pessoa”. Foi assim que Marcelo Rebelo de Sousa começou o discurso que marca o primeiro verdadeiro embate entre São Bento e Belém.
Foram duras as palavras que Marcelo dirigiu ao Executivo, mas suaves para as vítimas e seus familiares. Num discurso que começa por relembrar que “estes mais de 100 mortos não mais sairão do meu pensamento, como um peso enorme na minha consciência, tal como no meu mandato presidencial”, o Presidente é rápido a mudar o tom do discurso e a falar nas suas obrigações.
“Os mais de 100 mortos são igualmente uma interpelação política ao Presidente da República, que foi eleito para servir incondicionalmente os portugueses. Para cumprir e fazer cumprir uma Constituição que quer garantir a confiança e segurança dos cidadãos”. E é isso que Marcelo pretende fazer.
O chefe de Estado prometeu estar “atento e exercer todos os seus poderes para garantir que onde existiu ou existe fragilidade, ela terá de deixar de existir”. “Abrir um novo ciclo inevitavelmente obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo”, deixando assim a porta aberta para a saída de Constança Urbano de Sousa que, entretanto, já “cedeu” e apresentou a sua demissão.
Depois disso, as palavras continuaram duras, dirigindo-se ao primeiro ministro para exigir “rutura” com o passado.
Marcelo Rebelo de Sousa, no seu discurso, fala anda do pedido de desculpas que António Costa não fez, apelando à “humildade cívica” e esclarecendo que “de facto é justificável que se peça desculpa” nesta situação.
De São Bento, o Presidente da República exigiu ainda que retirassem “todas, mas todas as consequências da tragédia de Pedrógão, à luz das conclusões dos relatórios”, conforme se “comprometeu publicamente” a fazer.
O “Presidente dos afetos”, como é conhecido, deixou os afetos de lado e pediu à Assembleia da República que cumpra o seu papel e deu ao Parlamento a legitimidade e o dever de discutir e decidir se o Governo deve, ou não, continuar em funções, depois de o CDS-PP ter apresentado uma moção de censura
ao Governo.“Se na Assembleia da República, há quem questione a capacidade do atual Governo para realizar estas mudanças, que são indispensáveis e inadiáveis, então, que nos termos da Constituição, esperemos que a mesma Assembleia soberanamente clarifique se quer ou não manter em funções o Governo”.
E Marcelo continua: “Esta é a última oportunidade para levarmos a sério a floresta e a convertermos em prioridade nacional. Para mim, como Presidente da República, o mudar de vida neste domínio é um dos testes decisivos ao cumprimento do mandato que assumi e nele me empenharei totalmente até ao fim desse mandato. Impõem-no milhões de portugueses mas impõem-no sobretudo os mais de 100 portugueses que tanto esperavam da vida no início do verão de 2017 e não chegaram ao dia de hoje”.
PSD vai apoiar moção de censura do CDS
O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, falou esta manhã na Assembleia da República, a meio da reunião do grupo parlamentar social-democrata e confirmou que o PSD vai apoiar a moção de censura do CDS.
O líder dos sociais-democratas disse ter, “como cidadão” e lembrando que está em final de mandato como líder do PSD, “vergonha” do que se passou nos últimos meses em matéria de incêndios.
Pedro Passos Coelho disse que o Governo de Costa não tem, no seu entender, condições para continuar em funções e que já esgotou as “oportunidades” possíveis.
Prova é, defende Passos, o facto de Costa só ter aceitado a demissão de Constança Urbano de Sousa hoje, depois de a ministra ter revelado que lho pedira logo após os fogos de Pedrógão.
Para Passos, o Governo de Costa não tem então condições para continuar, depois de ter, a seu ver, desperdiçado oportunidades em série e “demitido-se” das responsabilidades.
Mas que fragilidade?Ou finalmente está a mostrar a tendência que tem para a direita?