José Sena Goulão / Lusa
O Presidente da República, Cavaco Silva, acompanhado pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho
Cerca de 100 personalidades públicas assinaram um manifesto contra a obrigatoriedade da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento nas escolas, considerando que os pais devem ter direito à objecção de consciência para não permitirem que os filhos a frequentem.
Este abaixo assinado surge no âmbito do caso despoletado pelos pais de duas crianças de Vila Nova de Famalicão que não deixaram os filhos frequentar as aulas da disciplina que é obrigatória.
Os estudantes de 12 e 14 anos do Agrupamento de Escolas Camilo Castelo Branco arriscam chumbar, ficando impedidos de passar para os 7º e 9º anos, respectivamente, e tendo que repetir dois anos de escolaridade por nunca terem frequentado a disciplina desde que arrancou no ano lectivo 2018/2019.
Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, o cardeal D. Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa, e o bispo de Aveiro, D. António Moiteiro, estão entre as personalidades que assinam o manifesto que foi promovido por Manuel Braga da Cruz, antigo reitor da Universidade Católica.
Os ex-ministros Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix e Rui Machete, o vice-presidente do PSD, David Justino, os ex-presidentes do CDS Adriano Moreira e Ribeiro e Castro estão entre os signatários do manifesto.
Além de professores universitários, como António Barreto, do ex-Procurador Geral da República Souto Moura, de médicos e directores de colégios, também o deputado do PS Sérgio Sousa Pinto assinam o documento.
De notar ainda que o historiador António Araújo, que é assessor de Marcelo Rebelo de Sousa, também é um dos nomes do abaixo-assinado.
O manifesto “é uma toma de posição pública que solicita às autoridades governamentais para atentarem na gravidade daquilo que está a acontecer“, explica Manuel Braga da Cruz à Renascença.
“Não vamos entregar especificamente a alguém, damos pública informação dele e esperamos sinceramente que as autoridades governamentais se deem conta daquilo que está a suceder”, refere ainda Braga da Cruz.
A disciplina de Cidadania e Desenvolvimento aborda temas como direitos humanos, igualdade de género, interculturalidade, participação cívica, ambiente e sexualidade, entre outros.
No manifesto, defende-se a “defesa das liberdades de educação”, considerando-se que os conteúdos abordados pela disciplina “não podem ser impostos à liberdade de consciência”.
É “imperativo que as políticas públicas de educação, em Portugal, respeitem sempre escrupulosamente, neste caso e em todos os demais casos análogos, a prioridade do direito e do dever das mães e pais de escolherem ‘o género de educação a dar aos seus filhos’, como diz, expressamente por estas palavras, a Declaração Universal dos Direitos Humanos”, refere ainda o documento.
O abaixo-assinado também cita a Lei de Bases do Sistema Educativo e vários artigos da Constituição Portuguesa, nomeadamente aquele que diz que “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”.
O manifesto faz a defesa dos pais do caso de Famalicão, considerando que “oportuna e repetidamente comunicaram às autoridades escolares a sua objecção de consciência quanto à frequência daquela disciplina pelos seus filhos” e que “uma juíza de direito já concedeu aos referidos pais uma providência cautelar contra a decisão do Ministério da Educação que manda anular a passagem de ano daqueles alunos”.
O Ministério da Educação avisou o encarregado de educação dos alunos que estes teriam que repor todas as aulas em atraso da disciplina para poderem passar de ano, algo que os pais rejeitaram.
No Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga decorrem dois processos movidos pelos pais dos estudantes contestando a posição do Ministério da Educação, com o intuito de anular a decisão de chumbar os estudantes.
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Do mais estranho que li nas últimas horas. Estou verdadeiramente estupefacto! Os leitores (e os signatários do tal manifesto) deram-se ao trabalho de rever os tópicos programáticos de tão polémica disciplina? Com a leitura ficaram cientes de que se trata de assuntos com valor formativo muito geral, não "fracturantes" e assépticos do ponto de vista moral ou religioso. Só mesmo um afã muito retrógrado consegue explicar esta iniciativa de novos cruzados. Informem-se!