European Parliament / Flickr

Jean-Claude Juncker

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, sublinhou esta terça-feira que o pedido formal britânico para sair da União Europeia deve ser feito “o mais rapidamente possível”. Pelo meio, interrompeu o discurso para se dirigir aos eurodeputados do UKIP.

“Quero que o Reino Unido clarifique a sua posição o mais rapidamente possível”, e “sem haver notificação da parte do Reino Unido não haverá negociações”, foram as frases que Juncker mais repetiu na intervenção no Parlamento Europeu (PE), que se reuniu esta terça-feira para debater o resultado do referendo britânico que, na quinta-feira, ditou o Brexit (saída da UE).

“Houve decisão, tem que haver consequências“, disse.

O líder do executivo comunitário referiu ainda ser “preciso que os britânicos levem a sério o seu próprio voto, é preciso que o Reino Unido leve a sério o que o seu povo disse, em vez de começar com jogos sombrios”.

Jean-Claude Juncker dizia que é necessário respeitar a decisão democrática britânica quando interrompeu o discurso para se dirigir a um eurodeputado do Partido Independentista do Reino Unido (UKIP), que começou a bater palmas de forma provocadora.

Esta é a última vez que aplaude aqui“, disse.

O presidente da Comissão Europeia dirigiu-se depois ao grupo do UKIP: “Em certa medida, estou muito surpreendido que estejam aqui. Lutaram pela saída. Os britânicos votaram a favor da saída. Porque é que estão aqui?“.

“Todos se riram de mim. Agora não estão a rir-se”

O momento de Nigel Farage acabou por chegar. O líder eurocético do UKIP e do grupo da Liberdade e Democracia no Parlamento Europeu perguntou aos eurodeputados se agora já não se estavam a rir, antes de ser interrompido por gritos das bancadas.

“Não é engraçado? Quando aqui cheguei há 17 anos e disse que queria liderar uma campanha para tirar o Reino Unido da União Europeia, todos vocês se riram de mim. Bem, agora não estão a rir-se.”

Farage foi mais longe e recordou as críticas que ao longo dos anos foi fazendo à UE: “Vocês, como um projecto político, estão em negação; estão em negação que a vossa moeda está a falhar”.

“O maior problema e a razão principal pela qual o Reino Unido votou é que nunca disseram a verdade ao povo europeu”, afirmou o eurodeputado britânico, acrescentando que a “união política” foi imposta e agora as pessoas votaram contra isso.

“O que as pessoas oprimidas fizeram, foi rejeitar os bancos e as multinacionais e disseram ‘queremos o nosso país de volta‘”, afirmou, reforçando a necessidade de promover um acordo favorável e “de gente crescida” porque quebrar os laços com o Reino Unido no comércio seria pior para a Europa do que para o seu país.

O eurodeputado britânico aproveitou ainda para deixar uma previsão: “O Reino Unido não será o último Estado-membro a abandonar a União Europeia“.

caption=

Durante o seu discurso, Farage virou ainda as baterias para os deputados.

“Eu sei que virtualmente nenhum de vocês teve alguma vez um trabalho sério nas vossas vidas”.

Perante a onda de vaias, o presidente Martin Schulz pediu que o eurodeputado retirasse este comentário e pediu ainda aos restantes eurodeputados que não apupassem, ou seja, “não se comportassem como os eurodeputados do UKIP”.

Depois de Farage dizer que para o ano espera que o Reino Unido celebre o dia 23 de junho como o Dia da Independência, Guy Verhofstadt afirmou que vai finalmente terminar o maior desperdício do orçamento da União Europeia desde há 17 anos, o salário de Nigel Farage.

Eurodeputados querem “aplicação imediata” de mecanismo de saída

O Parlamento Europeu aprovou por larga maioria uma resolução conjunta de três grupos políticos em que se pede a “aplicação imediata” do processo de retirada do Reino Unido da União Europeia (UE).

A aprovação da resolução conjunta dos grupos políticos do PPE (que integra os eurodeputados do PSD e CDS), S&D (onde estão os do PS) e ALDE (que inclui o eleito pelo MPT) seguiu-se a um debate sobre o referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia.

Os eleitores britânicos decidiram que o Reino Unido deve sair da UE, depois de o Brexit ter conquistado 51,9% dos votos no referendo de quinta-feira passada.

No seu discurso, Juncker referiu ainda: “proibi os comissários e os diretores-gerais de discutirem com representantes britânicos qualquer negociação, dei ordem para que não haja negociações de corredor” até ser acionado, por Londres, o artigo 50º do Tratado de Lisboa, que prevê o abandono do bloco europeu por um dos seus membros.

“Não podemos ficar nesta situação por muito tempo. Não nos podemos instalar numa situação de incerteza prolongada”, referiu.

“O voo [da UE] continua, apesar de estar agora com uma velocidade reduzida com este voto”, adiantou Juncker, garantindo não estar “doente nem cansado”.

“Vou lutar pela Europa até ao meu último alento”, assegurou ainda, perante o PE.

Sobre a decisão do primeiro-ministro britânico demissionário, David Cameron, de deixar nas mãos do seu sucessor o início do processo de saída da UE, Juncker foi claro: “sou contra que agora se procure distinguir este Governo britânico do próximo, isto não acontecerá”.

Juncker lembrou ainda que estará hoje na reunião do Conselho Europeu com Cameron, a quem vai pedir “que esclareça a situação”.

ZAP / Lusa