Andrey Mironov / Wikimedia

“A Traição de Judas”, pintura a óleo, de A.N. Mironov.

Desde sempre, o nome “Judas” foi associado a um traidor. A história bíblica não lhe pinta uma boa imagem, de facto, mas alguns historiadores duvidam da veracidade de alguns factos.

Judas Iscariotes foi um dos doze apóstolos de Jesus Cristo, que, de acordo com os evangelhos canónicos, veio a ser o traidor que entregou Jesus por trinta moedas de prata e, entrando em desespero, enforcou-se e condenou-se ao inferno. No entanto, a história deste seguidor de Cristo é algo difusa e carregada de mitos e mentiras.

Susan Gubar, da Universidade de Indiana Bloomington, realça que não há provas da sua existência para além dos relatos na bíblia. “Ninguém conseguiu localizar nenhuma fonte de Judas que seja independente das narrativas do Novo Testamento”, explicou, citada pelo site All That’s Interesting.

Aliás, mesmo na bíblia, poucas são as menções a Judas. O seu nome apenas é mencionado posteriormente, apenas para ser referido como o homem que traiu Jesus. Mas, afinal de contas, quem era Judas e seria ele um traidor ou um fiel discípulo de Jesus Cristo?

Na história contada pela bíblia, como forma de identificar Jesus às autoridades romanas, Judas teve de beijá-lo. Um texto egípcio com 1.200 anos, traduzido em 2013, sugere que Jesus tinha a capacidade de mudar de forma, sendo por isso difícil distingui-lo.

Depois de ter entregue o Messias às autoridades, todos os quatro evangelhos contam que, inundado pela culpa, Judas se suicidou. Enquanto uns relatam que ele se enforcou, outros dizem que os seus intestino rebentaram do seu corpo. No entanto, vários discípulos garantem que Judas era um membro respeitado pelos apóstolos e que até rejeitou a recompensar por ter denunciado Jesus.

Uma perspetiva diferente

Mas se Judas sentiu culpa, recusou a recompensa e até se suicidou, o que o terá levado a entregar Jesus aos romanos? Alguns especialistas sugerem que Judas Iscariotes pode nem ter traído Jesus e que a bíblia interpretou incorretamente o significado de ter identificado o Messias às autoridades.

Investigadores teológicos têm uma teoria completamente diferente e sugerem que uma fação de judeus radicais — os zelotes — queria usar a influência de Jesus para enfrentar os seus opressores romanos.

“Quando os zelotes viram a capacidade de Jesus de fazer o que quisesse, disseram-lhe que queriam que ele entrasse na cidade, destruísse as tropas romanas e se tornasse rei, mas ele não queria isso”, escreveu o historiador do século I, Flávio Josefo.

A única maneira que os zelotes tinham de comprovar que Jesus era o verdadeiro Messias, era levá-lo a julgamento. Por isso, possivelmente, quando Judas entregou Jesus aos romanos, poderá ter sido numa tentativa de saber se este poderia ser o Messias

capaz de liderar a revolta deste grupo radical contra os romanos.

Susan Gubar explica que, frequentemente, as posições da alta hierarquia da igreja associavam Judas ao povo judeu, como uma espécie de retórica anti-semita.

Também April DeKonick, professora de Estudos Bíblicos na Universidade de Rice, acredita que a demonização de Judas foi usada para condenar os não-cristãos. “A sua história foi abusada por séculos como justificação para cometer atrocidades contra judeus”, referiu ainda.

Judas, o fiel discípulo

Em 2006, foi encontrado o chamado “Evangelho de Judas”, composto por 26 páginas de papiro e que conta a versão de Judas Iscariotes sobre a crucificação de Jesus. De acordo com esta versão da história, Judas é retratado como um fiel discípulo, que apenas traiu Jesus para cumprir uma ordem do próprio Messias.

Supostamente, Jesus terá pedido a Judas que o traísse. Neste evangelho é narrada uma conversa secreta entre Jesus e os seus apóstolos, “três dias antes da Páscoa”, durante a qual o mártir repreende os seus discípulos por não reconhecerem a sua verdadeira natureza.

No entanto, havia um que nadava contra a corrente e percebia aquilo que Jesus verdadeiramente era: Judas. Foi então que Jesus lhe disse: “Separa-te deles, e eu vou contar-te os mistérios do reino, não para que chegues lá, mas para que fiques muito triste. Pois alguém vai tomar o teu lugar, para que os doze possam estar completos no seu Deus”.

Então, Jesus transmitiu-lhe os seus ensinamentos e disse que este deve traí-lo para alcançar os objetivos de Jesus. “Excederás todos eles, pois sacrificarás o ser humano que me carrega”, disse-lhe.

Judas poderá ser injustamente retratado como um traidor pela nossa sociedade, quando na verdade apenas satisfez os desejos do seu mestre. Aliás, algumas comunidades viam Judas como o discípulo favorito de Jesus.

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