Francis R. Malasig / EPA

Os adeptos japoneses têm dado nas vistas no Mundial da Rússia por recolherem o seu lixo no final dos jogos

Os japoneses têm dado nas vistas neste Mundial de futebol, a decorrer na Rússia, por recolherem o seu lixo no final dos jogos. Adeptos de outras seleções, como o Senegal ou o Brasil, já estão a seguir-lhes o exemplo.

Mamoru e Paroshi, dois adeptos do Japão, olham um para o outro e riem antes de responder à pergunta que se tornou frequente desde que o Mundial da Rússia começou: “porque é que os japoneses recolhem o seu próprio lixo?”.

“É a cultura japonesa”, dizem ambos, quando confrontados com o episódio no final do jogo contra a Colômbia na Arena Mordovia, em Saransk, que venceram por 2-1, que chocou meio mundo.

O civismo dos japoneses rapidamente se tornou viral, não só nas redes sociais como também entre a imprensa mundial. Felizmente, esta prática está a ganhar seguidores e, agora, até adeptos de outras seleções, como o Senegal e Brasil, já foram apanhados a fazer a mesma coisa.

Para os japoneses, é estranho que as pessoas estejam tão surpreendidas. “Nós sujamos, nós limpamos. Isto é normal no Japão“, diz Mamoru. E, como diz o provérbio que dá vida a esta tradição, “não atires terra para o poço que te dá água”.

Mais do que uma prática que está a acontecer nos estádios de futebol russos, esta é uma filosofia japonesa, passada de geração em geração, conhecida por “souji” (a palavra tem vários significados mas pode ser traduzida por uma bem simples de perceber: “limpeza”).

Currículo escolar

Nas escolas japonesas, as crianças estão responsáveis por realizar certas tarefas como, por exemplo, limpar casas-de-banho, varrer o chão ou lavar a loiça, num sistema rotativo coordenado pelos professores. O objetivo é ensinar os estudantes a terem cuidado com os espaços públicos que frequentam.

“Aprendemos desde cedo que é fácil levar este hábito para onde quer que vamos“, explica Chikako Ehara, outro adepto da seleção da Terra do Sol Nascente.

Já no Mundial do Brasil, em 2014, o hábito japonês de limpar o próprio lixo já tinha sido notado porque os adeptos iam para os estádios preparados para limpar tudo antes de saírem dos estádios. Durante a maior parte dos jogos, os sacos de lixo azuis eram improvisados a partir de balões usados para torcer pela equipa.

Mamoru explica que não é preciso muita organização para fazer isso acontecer. Basta que cada um limpe a área à sua volta. “É também uma forma de sermos respeitosos com os anfitriões”, afirma.

“Para nós, é uma honra que outros países também estejam a fazer o ‘souji’. Esperamos que outros adeptos se inspirem a fazer o mesmo”, diz ainda Chikako.

Prática errada?

No entanto, a limpeza dos estádios feita pelos adeptos está a gerar outro debate. No Japão, há quem diga que fazer o “souji” fora de casa significa interferir na cultura dos outros países.

Num artigo publicado em 2014, o escritor japonês Mayumi Matsumoto, que vive em Londres, questionou se esta prática não seria, na verdade, desrespeitosa para outras culturas e questionou mesmo se não poderia gerar perda de empregos.

“Não devemos desprezar as pessoas de outros países que não fazem a limpeza em eventos desportivos. Essas pessoas estão a comportar-se da forma que é natural para elas. E temos de pensar nas pessoas que precisam de emprego nos países mais pobres”.

Por enquanto, no Mundial da Rússia, o “souji” está claramente a ganhar o debate.

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