Tiago Petinga / Lusa

A empresária Isabel dos Santos, filha mais velha do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos

A empresária Isabel dos Santos parece ter mudado de estratégia e está a negociar com o Estado angolano a devolução dos milhões de que se terá apropriado indevidamente. Uma decisão que terá surgido face a pressões do pai, José Eduardo dos Santos, ex-presidente de Angola, e de dentro do EuroBic, depois de a empresária ter falado em “perseguição política”, reclamando a sua inocência.

Os advogados de Isabel dos Santos começaram, nesta semana, “conversações” com o Estado angolano para negociar a devolução do dinheiro em troca do fim das acusações que lhe são imputadas, conforme apurou o Expresso.

A empresária estará disposta a devolver verbas aos cofres angolanos para assegurar o levantamento do arresto dos seus bens, de modo a salvaguardar os seus activos em Angola. Já houve “reuniões informais nesse sentido”, com “conversações com a Procuradoria-Geral da República de Angola”, com o intuito de tentar alcançar um acordo, anuncia o semanário.

Mas, para já, o Procurador-Geral da República de Angola, Hélder Pitta Gróz, manifesta-se cauteloso e fala de “um sinal ainda ténue”, como cita o Expresso.

A mudança de estratégia de Isabel dos Santos terá sido motivada por pressão do pai, José Eduardo dos Santos, que terá convencido a filha a deixar de “se expor na comunicação social” e a evitar “o extremar de posições para salvar os seus activos em Angola”, afirma uma fonte próxima do ex-Presidente do país africano ao Expresso.

Por outro lado, elementos do EuroBic, nomeadamente Fernando Telles, o segundo maior accionista do Banco, terão também pressionado Isabel dos Santos a encontrar uma solução para o caso. “Telles está preocupado, pois o BIC está atolado em empréstimos contraídos por ela”, destaca uma fonte do Banco ao Expresso. Isabel dos Santos é ainda a accionista maioritária do Banco, com 32% das acções, mas já anunciou que vai deixar a sua participação no EuroBic.

Um eventual acordo com o Estado angolano pode deitar por terra qualquer acção judicial contra Isabel dos Santos, admite um jurista do MPLA ao Expresso.

Mãe de Isabel também terá usado EuroBic para “lavar” milhões

Entretanto, a mãe de Isabel dos Santos, a russa Tatiana Cergueevna Regan, será também suspeita de lavagem de milhões de euros através do EuroBic. Em causa estão transferências da ordem dos 10 milhões de euros feitas do estrangeiro para o EuroBic em Portugal, em 2012, como avança o Correio da Manhã (CM).

As operações suspeitas envolvendo Tatiana terão sido comunicadas às autoridades judiciais e são referidas no relatório da inspecção sobre branqueamento de capitais que o Banco de Portugal fez ao EuroBic, em 2015, sendo apontadas como “suspeitas” e “deficientemente examinadas ou não examinadas”, como cita o CM.

Por outro lado, o Público avança que a sociedade de advogados portuguesa Vieira de Almeida cobrou a uma offshore de Isabel dos Santos a elaboração de um decreto presidencial assinado por José Eduardo dos Santos para a reestruturação da Sonangol, isto antes de a empresária ter assumido a liderança da petrolífera estatal angolana.

O decreto terá sido redigido em Outubro de 2015, enquanto Isabel dos Santos assumiu a liderança da Sonangol em Junho de 2016.

Os Luanda Leaks apontam para que tenha sido através desse contrato assinado com a offshore da empresária que foram desviados mais de 115 milhões de dólares da Sonangol. Cerca de 58 milhões saíram da conta da petrolífera no EuroBic, em Portugal, poucas horas depois do anúncio da saída da empresária da Sonangol.

A Vieira de Almeida nota ao Público que a decisão de atribuir o pagamento do decreto à offshore sediada em Malta foi uma “decisão exclusiva” do Governo angolano da altura, liderado então por José Eduardo dos Santos, conforme nota enviada ao Público.

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